Diz ex-presidente da ERC: “Hoje vendem-se spots nos canais generalistas a 100 euros”

18 de Novembro de 2011 às 00:50:17, por Elsa Pereira

Azeredo Lopes

Foi o primeiro presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e orgulha-se do seu mandato. Em entrevista ao M&P, Azeredo Lopes, que deixou o cargo há pouco mais de uma semana, não podia ser mais crítico face ao relatório sobre serviço público conhecido esta semana.

M&P: O grupo de trabalho para a definição do serviço público de comunicação social defende, no relatório divulgado esta semana, que a ERC seja extinta para dar lugar à auto-regulação, advogando ainda que devem ser os tribunais a intervir em caso de conflito. Como entende esta perspectiva?

AL: É uma patetice. É uma bicada de amor dos do costume. Acho admirável como é que se consegue propor a extinção de um órgão constitucional em quatro linhas. Devem ter uma capacidade de síntese muito superior à minha. Acho um completo disparate, muito mal fundamentado e que revela sobretudo uma ignorância tão crassa, como aliás era de se esperar vinda do autor dessa proposta, que não vou dizer mais nada sobre isso. Vale o que vale, isto é, zero.

M&P: Como olha para a privatização de um dos canais da RTP?

AL: Uma coisa é eu achar mal a privatização enquanto tal. Quem vai tomar essa decisão tem uma legitimidade que eu não tenho. Acho que é um erro, mas é uma mera opinião que bate na capacidade de decisão de quem foi a votos. Discordo na mesma mas não questiono a sua legitimidade. Se a privatização, como parece que é intenção, se traduzir em mais um player no mercado, já não é uma questão filosófica, é uma questão de espaço público. Acho de um primarismo inacreditável dizer-se “acreditamos no mercado, se não vingar morre um”. Mas morre um qual, morre o que entra? Morre o que já lá está? Qual? Por razões trágicas a televisão foi praticante de descontos nas suas tabelas que vão até 95 por cento. Hoje vendem-se spots nos canais generalistas a 100 euros. Ao contrário do que pensamos a porosidade do mercado publicitário leva a televisão a concorrer com qualquer meio nacional ou local. Ora se os grandes se constipam, e eu acho que estão constipadíssimos, se apanharem uma pneumonia vai tudo abaixo. Temos números da diminuição de títulos da imprensa regional. E o retrato é cruel. Há uma imensidão de títulos que ou já foram, ou morreram e ainda não sabem. Quando vemos as contas dos principais grupos de media, os resultados das rádios… Mais um player? Deve existir o “S. Mercado” mas eu nunca o vi. Se para fazer vingar a tese do santo mercado o fazemos explodir, tenho sérias dúvidas. Haverá consequências devastadoras não só no sistema mediático mas também junto de quem o financia. É como com as cerejas, quando cai uma… Causa-me perplexidade. Uma coisa é eliminar um serviço de programas. Outra é colocar outro nesse lugar. Não há dinheiro. Em bom português: prefiro a porcaria de um órgão de comunicação social do que esse órgão não existir, porque tenho esperança de que numa altura em que haja melhores condições, até por razões de mercado, ele vai procurar ser melhor. Numa altura em que estamos no aguentar para ver se sobrevive, injectar mais um actor? Deve ter-se descoberto o milagre da multiplicação dos pães, ou então sou eu que não percebo nada disto. É o mais provável.

M&P: Na sua opinião qual deve ser o modelo de serviço público?

AL: O grupo de trabalho não propôs modelo nenhum. Aquilo é um ABC do serviço público, ou melhor, um tudo aquilo que gostaria de saber sobre serviço público mas não ousa perguntar. Aliás, prefiro ler assim, quase como uma coisa divertida, de tertúlia, de pessoas seguramente muito interessantes em que cada uma tinha que escrever cinco linhas sobre um tópico. Não reconheço àquilo dignidade. Não é nada. E tenho pena, estou a pensar em como quem presidiu aos trabalhos, que é uma pessoa que eu respeito, sufraga algo tão pobre. Devo ser eu que sou demasiado exigente. Do que já foi anunciado pelo Governo, refiro-me ao plano de reestruturação, destaco uma concepção mais rigorosa. É mau por um lado, é bom por outro. O velho princípio ou comem todos ou haja moralidade aplica-se aqui. Se se exige excelência de gestão aos privados deve fazer-se o mesmo com a RTP. Quanto ao resto ainda não tenho bem a certeza do que vai ser.

A entrevista completa está disponível na edição desta semana do Meios & Publicidade.

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