Dirigir publicações: um trabalho muito difícil – 2

Referi aqui a semana passada a queda de três diretores de jornais diários, que associei à brutal descida das vendas que afecta esses títulos (JN, DN e Record), e sublinhei as dificuldades com que luta quem dirige publicações comercializadas em banca, numa época em que agoniza o hábito de adquirir informação em papel.

Quero hoje apontar outros dois obstáculos que se erguem à liderança dos projetos jornalísticos: o desinvestimento editorial e as apostas individuais, que desenvolverei depois – talvez já para a semana. Quanto ao primeiro, trata-se de um fenómeno e de uma necessidade.

Fenómeno porque os antigos editores foram sendo substituídos por acionistas que têm, de jornais e revistas, uma visão mais financeira e menos romântica, e que contratam gestores para decidirem com base em fatores quase exclusivamente relacionados com o dinheiro.

Necessidade porque vários títulos já não se publicariam se não tivessem respondido à quebra de receitas com as redução de custos em salários e colaborações, papel e impressão, deslocações, refeições de serviço e uma série infindável de despesas, todas importantíssimas – mas muitas totalmente desnecessárias.

O problema é que o emagrecimento de recursos, humanos e materiais, se esgota mal acabe a carne e nos reste, para gerir, apenas o osso. Conseguir sobreviver após respirar esta pesada nuvem de gás sarin é o desafio que se coloca a jornalistas impreparados, erradamente formados não nas empresas, mas na escola da notícia.

Observador, Sábado 11SET14

Um trabalho muito difícil – 1

Em menos de um mês, três diretores de grandes diários de circulação nacional perderam os seus cargos. Manuel Tavares, João Marcelino e João Querido Manha deixaram, respectivamente, Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Record, cujas redacções lideravam há três, sete e apenas um ano. Não eram empregos para a vida, longe disso, antes lugares de enorme desgaste, nos quais se luta, diariamente, contra o galopante desaparecimento do papel e a falta de receitas nas cada vez mais procuradas edições digitais.

Não é preciso recuar aos anos dourados do fim do século 20, fiquemos por 2004. De então para cá, o JN caiu de 112.150 exemplares em banca para os 52.685 do primeiro semestre de 2014 (menos 53%), o DN desceu de 39.094 para 11.965 (menos 69,4%) e o Record veio dos 91.544 exemplares em banca no ano do Europeu de futebol para os actuais 42.156 (menos 54%), boa parte deles da minha própria responsabilidade. São 500 milhões de exemplares perdidos numa década só por esses três títulos, o que torna a gestão muito difícil, obriga a redução drástica de custos e leva as administrações a cortar cabeças na esperança de que um milagre possa acontecer.

Não é brilhante a herança que António Magalhães recebe das direções anteriores, mas grande é o talento e a vontade – dele e da sua equipa. Sorte, amigos!

Observador, Sábado, 4SET14

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