Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Dia de partida e de chegada

Quem melhor que Vicente Lucas, o magriço que “secou” Pelé, para me dar o abraço de despedida? Um presente do meu amigo Rui Dias, que nunca desistiu…

Fecha-se hoje o meu ciclo de 10 anos 5 meses e 27 dias como diretor de Record. Deixo o jornal na liderança da imprensa especializada em desporto: temos mais leitores, vendemos mais jornais, faturamos mais publicidade, apresentamos melhores resultados, ou seja, damos mais valor aos acionistas. Olhando, aliás, para os números da APCT de um dos nossos concorrentes e conhecendo as tiragens do outro, posso mesmo acrescentar aquilo que, sendo óbvio, se tenta por vezes negar: nunca estivemos tão à frente.
Mas os tempos vão difíceis, as receitas revelam tendência para continuar em queda, o consumo desce para níveis perigosos, a crise anuncia que não ficará pedra sobre pedra no que antes nos pareciam sólidos edifícios. As empresas que não enfrentarem as dificuldades com coragem e que não sejam capazes de reduzir os custos e enfrentar o futuro com criatividade e novas energias fecharão as portas – ou ficarão irremediavelmente para trás.
Na última década, dediquei a maior parte da minha vida ao Record. Deixei de ler muitos livros, de ver muitos filmes, de apreciar muita música, de desfrutar com a família e de fazer aquilo a que um homem na minha idade jamais deve renunciar: aproveitar cada dia como se não houvesse outro.
Em vez disso, cumpri semanas de 60 horas, cheguei a trabalhar um mês sem descanso, escrevi uma crónica diária (sem falhar uma edição!) na última página durante anos, acumulei meses de férias e folgas por gozar, prejudiquei a saúde e provavelmente reduzi o meu prazo de validade. Mas diminuí os custos editoriais em quase 40% num período em que a inflação acumulada agravou 20% os custos. Imprimi a minha marca no jornal e vi partir dezenas de companheiros que não se adaptaram à mudança, que tinham salários superiores às responsabilidades que queriam assumir ou à qualidade do seu desempenho, ou para os quais, simplesmente, deixou de haver espaço no jornal. Sofri com o seu sofrimento, levo comigo os seus rostos perdidos, mas mantive o foco nos resultados e na determinação indispensável para que o Record continuasse líder, resistisse à crise e garantisse trabalho a mais de uma centena de jornalistas, gráficos e técnicos de apoio.
Criei regras, impus rotinas, constituí um “núcleo duro” – em que poucos pareciam querer participar… – lutei contra o conformismo e contra a pressão dos interesses instalados. E procurei seguir uma linha editorial mais jovem, inquieta e diferenciadora, numa imprensa “desportiva” estagnada, refém de estereótipos e de fórmulas ultrapassadas. Os conceitos inovadores que criámos foram tantos – do Senado Record ao Prémio Artur Agostinho, passando pelo Código 30, pelas análises de A a Z, pelo TotoRecord, pelo Fora de Campo, pelo Mister Chefe, pelo Tribunal Popular, pelo Jogo da Vida, pelas Conversas de Sábado ou pelo Record de Ouro – que se torna impossível referi-los todos.
Essa tarefa revestiu-se de sucesso. Os resultados financeiros, entre 2003 e 2012, corresponderam à expectativa do acionista e até os deste primeiro semestre, na atual e dificílima conjuntura, me permitem sair com o sentimento do dever cumprido. Não faltaria quem fizesse diferente, duvido – imodestamente é certo – que se fizesse melhor.
Existe, porém, outra realidade. Os cemitérios estão cheios de quem um dia se julgou insubstituível e só a mudança faz o Mundo avançar. E a verdade é que Record tem uma boa margem de progressão, um caminho a trilhar, uma renovação por fazer, gente jovem e entusiasta que pede estímulo, exige oportunidades, adora desafios e está pronta a enfrentar a crise e a derrotá-la. Sinto que já não sou o almirante dessa batalha, não sei se conseguiria ultrapassar com sucesso esse temível Adamastor. E preciso da minha vida de volta, ambiciono ainda abrir-lhe outro ciclo antes do ciclo final.
Quisemos, eu e a Administração da Cofina, procurar um ponto de encontro neste desencontro de interesses que momentaneamente nos afastou. E lá chegámos. Não só na dignidade com que foi tratada a minha renúncia, como na opção feliz pelo novo diretor, um colunista de referência de Record, um jornalista que admiro há 30 anos, um conhecedor profundo do desporto em geral e do futebol em particular, um homem de princípios – João Querido Manha.
Contra a sua vontade, não escreverei no Record durante algum tempo, mas é como se o fizesse, não numa crónica semanal mas todos os dias, como incentivo permanente à renovação que o João encetará, à motivação que todos terão de encontrar para lhe corresponder, à manutenção daquilo que é talvez – e sou outra vez imodesto – o meu verdadeiro legado: a capacidade que adquirimos de nos esforçarmos mais para sermos melhores.
Agradeço à Administração da Cofina a sua confiança até este último dia e a forma como me fez sentir tão importante no momento da chegada como na hora do adeus. E que, afinal, me deixa partir e ficar com a porta aberta. Agradeço muito particularmente a dois amigos: ao Alberto do Rosário, pela oportunidade do “24 Horas” e depois do Record, por estes 13 anos inesquecíveis, e ao Luís Santana pelo apoio total e persistente que me permitiu cumprir um ciclo e concretizar aquilo para que vim: apresentar resultados.
Agradeço ao “núcleo duro” do jornal, em especial ao António Magalhães, meu “compagnon de route”, pela luta fraterna, solidária e gigantesca que travámos juntos. Nunca esquecerei jornalistas tão dedicados, tão sérios e tão qualificados. Agradeço a todos os companheiros – com um aceno especial à “ínclita geração” da Hora Record –, tanto aos que vejo preocupados com o futuro como aos que sinto felizes por me verem pelas costas. Precisei de todos e a todos peço desculpa pelo que não fui capaz de realizar e por aquilo em que lhes terei faltado.
Aminha derradeira palavra vai, nem podia ser de outro modo, para os leitores. Desde aqueles que leram, há 49 anos (ai, ai…), a primeira crónica do escriba no “Mundo Desportivo”, aos que tomaram conhecimento de que existo, quem sabe, com estas linhas. Tudo consegui convosco, pelo que vos deixo o meu obrigado e uma certeza: continuarei por aí a abusar da vossa infinita paciência. Até amanhã, meus amigos.

8547.Vicente

Fecha-se hoje o meu ciclo de 10 anos 5 meses e 27 dias como diretor de Record. Deixo o jornal na liderança da imprensa especializada em desporto: temos mais leitores, vendemos mais jornais, faturamos mais publicidade, apresentamos melhores resultados, ou seja, damos mais valor aos acionistas. Olhando, aliás, para os números da APCT de um dos nossos concorrentes e conhecendo as tiragens do outro, posso mesmo acrescentar aquilo que, sendo óbvio, se tenta por vezes negar: nunca estivemos tão à frente.

Mas os tempos vão difíceis, as receitas revelam tendência para continuar em queda, o consumo desce para níveis perigosos, a crise anuncia que não ficará pedra sobre pedra no que antes nos pareciam sólidos edifícios. As empresas que não enfrentarem as dificuldades com coragem e que não sejam capazes de reduzir os custos e enfrentar o futuro com criatividade e novas energias fecharão as portas – ou ficarão irremediavelmente para trás.

Na última década, dediquei a maior parte da minha vida ao Record. Deixei de ler muitos livros, de ver muitos filmes, de apreciar muita música, de desfrutar com a família e de fazer aquilo a que um homem na minha idade jamais deve renunciar: aproveitar cada dia como se não houvesse outro.

Em vez disso, cumpri semanas de 60 horas, cheguei a trabalhar um mês sem descanso, escrevi uma crónica diária (sem falhar uma edição!) na última página durante anos, acumulei meses de férias e folgas por gozar, prejudiquei a saúde e provavelmente reduzi o meu prazo de validade. Mas diminuí os custos editoriais em quase 40% num período em que a inflação acumulada agravou 20% esses custos.

Imprimi a minha marca no jornal e vi partir dezenas de companheiros que não se adaptaram à mudança, que tinham salários superiores às responsabilidades que queriam assumir ou à qualidade do seu desempenho, ou para os quais, simplesmente, deixou de haver espaço no jornal. Sofri com o seu sofrimento, levo comigo os seus rostos perdidos, mas mantive o foco nos resultados e na determinação indispensável para que o Record continuasse líder, resistisse à crise e garantisse trabalho a mais de uma centena de jornalistas, gráficos e técnicos de apoio. 

Criei regras, impus rotinas, constituí um “núcleo duro” – em que poucos pareciam querer participar… – lutei contra o conformismo e contra a pressão dos interesses instalados. E procurei seguir uma linha editorial mais jovem, inquieta e diferenciadora, numa imprensa “desportiva” estagnada, refém de estereótipos e de fórmulas ultrapassadas. Os conceitos inovadores que criámos foram tantos – do Senado Record ao Prémio Artur Agostinho, passando pelo Código 30, pelas análises de A a Z, pelo TotoRecord, pelo Fora de Campo, pelo Mister Chefe, pelo Tribunal Popular, pelo Jogo da Vida, pelas Conversas de Sábado ou pelo Record de Ouro – que se torna impossível referi-los todos. 

Essa tarefa revestiu-se de sucesso. Os resultados financeiros, entre 2003 e 2012, corresponderam à expectativa do acionista e até os deste primeiro semestre, na atual e dificílima conjuntura, me permitem sair com o sentimento do dever cumprido. Não faltaria quem fizesse diferente, duvido – imodestamente é certo – que se fizesse melhor.

Existe, porém, outra realidade. Os cemitérios estão cheios de quem um dia se julgou insubstituível e só a mudança faz o Mundo avançar. E a verdade é que Record tem uma boa margem de progressão, um caminho a trilhar, uma renovação por fazer, gente jovem e entusiasta que pede estímulo, exige oportunidades, adora desafios e está pronta a enfrentar a crise e a derrotá-la. Sinto que já não sou o almirante dessa batalha, não sei se conseguiria ultrapassar com sucesso esse temível Adamastor. E preciso da minha vida de volta, ambiciono ainda abrir-lhe outro ciclo antes do ciclo final.

Quisemos, eu e a Administração da Cofina, procurar um ponto de encontro neste desencontro de interesses que momentaneamente nos afastou. E lá chegámos. Não só na dignidade com que foi tratada a minha renúncia, como na opção feliz pelo novo diretor, um colunista de referência de Record, um jornalista que admiro há 30 anos, um conhecedor profundo do desporto em geral e do futebol em particular, um homem de princípios – João Querido Manha. 

Contra a sua vontade, não escreverei no Record durante algum tempo, mas é como se o fizesse, não numa crónica semanal mas todos os dias, como incentivo permanente à renovação que o João encetará, à motivação que todos terão de encontrar para lhe corresponder, à manutenção daquilo que é talvez – e sou outra vez imodesto – o meu verdadeiro legado: a capacidade que adquirimos de nos esforçarmos mais para sermos melhores.

Agradeço à Administração da Cofina a sua confiança até este último dia e a forma como me fez sentir tão importante no momento da chegada como na hora do adeus. E que, afinal, me deixa partir e ficar com a porta aberta.

Agradeço muito particularmente a dois amigos: ao Alberto do Rosário, pela oportunidade do “24 Horas” e depois do Record, por estes 13 anos inesquecíveis, e ao Luís Santana pelo apoio total e persistente que me permitiu cumprir um ciclo e concretizar aquilo para que vim: apresentar resultados.

Agradeço ao “núcleo duro” do jornal, em especial ao António Magalhães, meu “compagnon de route”, pela luta fraterna, solidária e gigantesca que travámos juntos. Nunca esquecerei jornalistas tão dedicados, tão sérios e tão qualificados. Agradeço a todos os companheiros – com um aceno especial à “ínclita geração” da Hora Record –, tanto aos que vejo preocupados com o futuro como aos que sinto felizes por me verem pelas costas. Precisei de todos e a todos peço desculpa pelo que não fui capaz de realizar e por aquilo em que lhes terei faltado.

A minha derradeira palavra vai, nem podia ser de outro modo, para os leitores. Desde aqueles que leram, há 49 anos (ai, ai…), a primeira crónica do escriba no “Mundo Desportivo”, aos que tomaram conhecimento de que existo, quem sabe, com estas linhas. Tudo consegui convosco, pelo que vos deixo o meu obrigado e uma certeza: continuarei por aí a abusar da vossa infinita paciência. Até amanhã, meus amigos.

Minuto 0, publicado na edição impressa de Record de 18 julho 2013, a última em que o meu nome saiu no cabeçalho do jornal