Descrucificação de Cristiano Ronaldo

Até já lhe chamam CR zero, para aliviarem a intensa frustração que sentem por pouco valerem. E poderem matar, ao mesmo tempo, a sede da inveja social com que – como pés rapados que são – contemplam o milionário saído do nada pelos próprios méritos.

O Portugalzinho da Silva regressou em todo o seu esplendor após este semifracasso da participação da Seleção no Mundial. Tudo o que jogadores, técnicos e dirigentes conseguiram no passado já não conta. Mesmo a própria análise das razões do insucesso deixou de interessar, os alvos agora são as pessoas, é preciso denegri-las e insultá-las. E como só Carlos Queiroz não basta, Cristiano Ronaldo é o outro alvo a abater.

Como todas as moedas têm duas faces, há que não branquear os factos. E eles são: o craque do Real Madrid fez, como futebolista, um péssimo Mundial, e não teve, como capitão de equipa, a postura que devia ter tido. A cuspidela para a câmara é um horror, o “perguntem ao Queiroz” uma criancice.

Mas devemos ir à raiz do problema. Cristiano nasceu num meio humilde, arredado da cultura e longe da abastança. Virou sempre a sua vida para o que lhe dava felicidade: o futebol. Não triunfou nos estudos porque as suas aulas mais fecundas eram as da bola. Viveu em quartos, na grande cidade, longe do carinho dos seus. Cedo, talvez cedo de mais, teve dinheiro no bolso e cresceu depressa, talvez depressa de mais. O seu talento trouxe-lhe o mediatismo e a fama, e o peso que ganhou, entre pares, deu-lhe uma braçadeira de capitão, talvez pesada de mais.

De que se estava à espera? De um homem solidamente formado, com o nível de um Beckenbauer? De um líder nato, com o carisma de um Pelé? De um capitão como Raúl ou como Figo, capaz de generosidade na vitória e de grandeza na hora da derrota? Não, pegámos num menino e exigimos-lhe tudo, até que carregasse às costas não com a equipa, como diz José Mourinho, mas com as desgraças da Pátria.

E agora queremos crucificá-lo, liquidá-lo. De todos os erros, eis um que não se concretizará.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 2 julho 2010

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