Missão impossível

O acompanhamento das cerimónias fúnebres de Maria Barroso alargou-se a todos os canais e teve momentos tocantes. Personalidade única pelo que realizou, não foi difícil ao mais banal dos repórteres executar o trabalho. Fácil foi cair em lugares comuns e frases inadequadas, como essa de que “o povo saiu à rua” para aplaudir a mulher de Mário Soares. Não era “o povo”, mas sim, como com qualquer figura pública, o “seu” povo, aqueles que a admiravam, que eram muitos, embora muito menos do que a sua vida merecia.

Poucos símbolos da nossa democracia justificariam os elogios que ouvimos, de Maria Cavaco Silva a Fernando Rosas, sendo certo que se andou perto de conseguir definir a mulher de família e de causas, a resistente e a pedagoga, a deputada e a primeira-dama. Só não houve palavras que chegassem para dar aos eternos “distraídos” – seria missão impossível – uma ideia clara do seu legado de tolerância, generosidade e caráter. E de coragem no tempo em que ter coragem saía caro.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 11JUL15

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