Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Deem-me Cebolinhas e fiquem com os Tavares

Passei um belo fim de semana confinado, eis a verdade. Entre as 13 horas e a madrugada foi só gerir, em direto ou em diferido, as múltiplas transmissões televisivas. Além do mais, correu-me bem. Miguel Oliveira ganhou o GP, o Mourinho enganou o Guardiola, Cristiano, Diogo Jota e Bruno Fernandes marcaram, Gelson Martins venceu Neymar, João Félix vulgarizou Messi, a “next gen” avançou no Masters de ténis – sim, sou fã de Federer e de Nadal mas gosto de ver o Mundo girar – e o Belenenses levou de vencida o Palmense, liderando a grande marcha do regresso.

Naturalmente, vi também a pálida exibição dos reservistas do Benfica em Paredes, com Jorge Jesus a explicar, no final, o que estamos carecas de saber: que a maioria daquela rapaziada não conta para o totobola. Ele tinha antes, aliás, criticado – e bem, penso eu de que – haver mais olhos que barriga em alguns “dentes de leite” que fazem umas habilidades e marcam uns golos nos escalões jovens e logo se julgam umas estrelas. O treinador do Benfica teve, tem e sempre terá, não uma animosidade em relação ao novo, mas uma reserva firme ao tempo necessário para transformar um jogador promissor num craque. Porque Jesus não ambiciona ter amanhã uma placa no Seixal, a louvar o descobridor de talentos. O negócio dele é, simplesmente, ganhar hoje, já. Afinal, os 70 anos vêm aí e o reumático é certo. Tal como despachou Bernardo Silva, Cancelo ou Gonçalo Guedes, o Benfica que despache outros – essa guerra não é a dele.

Muitos, para não dizer quase todos os que veem agora o Belenenses a renascer das cinzas, não conseguem voltar aos idos de 2006 a 2008, quando um entusiasta e bem intencionado presidente, o eng. Cabral Ferreira, endividou de vez os azuis do Restelo para dar a Jorge Jesus os jogadores que exigia, que  lhe permitiram alcançar dois quintos lugares no campeonato – o segundo prejudicado pelo “caso Mateus” –, chegar a uma final da Taça de Portugal e iniciar a carreira de sucesso que o trouxe até onde está. Não vale a pena tentar discutir o que não tem discussão, com JJ o caminho é de sentido único e só uma realidade importa: deem-me Cebolinhas a mim e de mamar aos Tavares.

Último parágrafo para a DGS, ou melhor para as diversas direções e contradireções espalhadas pelo país, que matam umas atividades – acredito que pelos bons motivos, os da saúde pública – e autorizam outras, com uma dualidade de critérios incompreensível e que revolta os que se sentem lesados. Em Paredes, no jogo da Taça, houve público na bancada, mas em estádios enormes, casos do Dragão ou da Luz, não se permite sequer um décimo da lotação. Como a situação sanitária dificilmente melhorará antes de começar a ser aplicada uma vacina, iremos continuar a assistir a protestos inflamados de pessoas de bem – com os inevitáveis baderneiros profissionais infiltrados – a exigir ao Estado o que o Estado não tem. Quase da raça do coronavírus é o monstro policéfalo que assume o comando do combate.

Outra vez segunda-feira, Record, 23nov20