De Madrid à Luz e da Luz a Madrid: quatro horas loucas, loquitas

Quando estamos com a cabeça em Madrid, para ver um Real-Atlético e um Getafe-Barcelona, e nos cai um dérbi lisboeta em cima, ficamos divididos entre o prazer e o cumprimento do dever. Por um lado, a curiosidade de saber se Cristiano Ronaldo ultrapassaria Messi na lista dos marcadores, se o Real ganharia o clássico madrileno, se Mourinho somaria nova goleada. Do outro, o desafio da Luz, com os velhos rivais separados apenas por 1 ponto, grandes jogadores, árbitro novato, treinadores de top, público entusiasta, enfim, condimentos para fixar um olho em cada LED.

O problema é a concentração, até porque se temos também o Twitter aberto levamos com mais maluquinhos da bola à solta, com pequenas provocações a que é impossível não replicar na hora, com dados estatísticos a cair em torrente e com os anormais do costume que é preciso bloquear depressa para não espernearem mais.
Tem razão o leitor se está a pensar o que eu penso que está: só vi metade do Benfica-Sporting e ouvi apenas a outra metade, pois comentários à minha volta foi o que não faltou. E sendo assim, que posso eu acrescentar aos opinadores desta edição, sendo certo que uma contracrónica aborda outras coisas e pode ainda furtar-se a consensos, a posições maioritárias ou ao politicamente correto?

Bem, diria então que este Sporting foi brilhante em várias fases da partida e que o trabalho de Domingos Paciência – e que paciência ele teve para ler e ouvir todos os disparates que subscrevemos no início da época! – está de vez à vista, já que os leões são hoje uma turma estruturada, concentrada, unida, taticamente adulta e formada por executantes de primeira água. Tem também, a qualidade que faz a diferença: uma atitude sempre positiva, sempre determinada, sempre inconformada, quase sempre intocável. Deve ser bom ter um treinador assim, um treinador capaz de fazer de rapazinhos bem comportados uma equipa. E deve ser bom ter jogadores assim, jogadores capazes de trabalhar, de entender as ideias do técnico, de perseguir um objetivo, de perceber que as vitórias nascem tantas vezes do esforço suplementar que somos ainda capazes de fazer quando julgamos já ter dado tudo.

Na segunda parte, o problema complicou-se. Tinha acabado o dérbi do Santiago Bernabéu com mais uma “chapa 4” do Real – a quinta da época, a 12.ª da era Mourinho – e com Cristiano Ronaldo a rubricar mais dois golos e a passar Messi, e começara, uns quilómetros ao lado, o Getafe-Barcelona, que cheirava a goleada, já que a boa gente dos arrabaldes madrilenos entrava em campo com uma das três piores defesas da Liga espanhola e com duas vitórias em 12 jogos.

Enquanto esperava o primeiro do Barça, vi na Luz o Benfica a reagir fantasticamente a uma entrada de segunda parte muito boa do Sporting – abatido à cabeçada por Javi García mesmo antes do intervalo. Por curiosidade, os encarnados melhoraram na sequência da expulsão de Cardozo, atingido por uma paragem cerebral que o pôs a discutir com o árbitro, algo que como se sabe costuma dar excelentes resultados. Foi aí que o Benfica mostrou a sua raça, recuando no terreno, atuando os seus jogadores mais perto uns dos outros e anulando assim as investidas do leão, talvez com exceção dos sprints infernais de Capel que ninguém parece conseguir travar.
Surgiu igualmente nessa fase o dedo de mestre Jesus, que tirou o esfalfado Aimar – uma hora do melhor nível assinou o argentino – e meteu o fresco Rodrigo para correr lá à frente o que pudesse a segurar os das riscas, e logo a seguir substituiu o apagado Bruno César por Ruben Amorim, que defende naturalmente melhor e se contém na altura do disparate.

Estava eu a ver o Sporting a jogar talvez mais e o Benfica, reduzido a 10, a controlar as operações, abdicando de tentar o 2-0 e evitando ser apanhado em contrapé, quando a malta do Getafe, farta de aturar com competência as diatribes das estrelas do Barça, se atreveu a fazer algo mais pela vida e logrou o 1-0. Como na Luz já ardiam cadeiras – quando se barrarão a estes anormais a entrada nos estádios? – fui roendo as unhas (ai, esta minha alma madridista!) enquanto o tempo escoava e quase morri, aos 93 minutos, quando Messi, o Implacável, apareceu isolado pela direita e rematou ao poste, já eu via, juro, a bolinha colada às redes do meu Getafezinho.

Pronto, acabaram assim quatro horas loucas, “loquitas”, de futebol, com atenções repartidas e sem que possa, por isso – e por absoluta falta de vontade – atender às reclamações verde e brancas sobre o trabalho do sr. Capela. Os árbitros erram desde que vejo futebol, o Sporting jogou bem e se empatasse também haveria justiça, mas no futebol só contam as que vão lá para dentro. E depois, com o Real a 6 pontos do Barcelona, eu vou mas é apanhar o avião e entrar em estágio para 10 de dezembro. Ala para Madrid. Hala Madrid!

Contracrónica, texto publicado na edição impressa de Record de 27 novembro 2011

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