Crónicas da Sábado: um livro que talvez

Nunca um produtor me procurará para fazer um filme, terei de me remeter à minha insignificância. E conformar-me com o inesperado interesse das duas editoras que recentemente procuraram saber se estaria disposto a escrever um livro sobre os 50 anos de carreira que completarei em 2014 – se lá chegar, que a vida não está fácil e o jornalismo então… valha-nos Deus.

Não quero comprometer-me. Já estou na estrada dessa escrita mas preciso de avaliar, lá mais para o final do ano, se as notas que vou juntando têm pernas para andar, ou seja, se uma possível edição poderá ser útil aos jornalistas que se iniciam na profissão e fará justiça a tantos nomes da comunicação social com que me cruzei pontualmente, ou mesmo trabalhei, uns brilhantes e outros banais, uns a puxarem-me para a frente, outros a tentarem atirar-me para trás – para trás deles, claro.

Não vou acertar contas, jamais aceitarei viver debaixo da nuvem do ressentimento e muito menos sentir qualquer vontade de vingança, espúria e menor, que me atingiria primeiro a mim. Mas factos são factos e tenho uma face da verdade para talvez contar, na esperança de que os erros que cometi, os golpes de sorte de que beneficiei e as estratégias de natureza individual que me permitiram perseguir interesses e concretizar objectivos possam servir não diria de exemplo, apenas de experiência para quem acredite que se aprende alguma coisa conhecendo o que aconteceu a outros.

Terei, naturalmente, de começar por aquela tarde de julho de 1964 em que sacudi a minha terrível timidez de adolescente e entrei nas instalações do Mundo Desportivo para perguntar ao chefe da redacção do trissemanário, o jornalista José Valente, se estaria interessado em que eu fizesse a reportagem dos Jogos Internacionais da FISEC, que se disputariam no mês seguinte, em Espanha, e nos quais iria participar como atleta. Aprovada a ideia, desci a quatro e quatro os degraus do mítico edifício da Empresa Nacional de Publicidade, feliz como se me tivesse saído uma fortuna.

Estava muito longe de imaginar que 38 anos depois voltaria a subir as mesmas escadas, então para entrar no gabinete destinado ao director do 24 Horas. Mas também não sonhava que o homem que tão generosamente me recebera seria despedido, poucos meses mais tarde, não por causa das duas reportagens minhas que o jornal publicou, vá lá, mas como consequência dos estilhaços da manchete explosiva do Mundo Desportivo, após a vitória histórica (5-1) do Benfica sobre o Real Madrid: O Vale dos Caídos mudou-se para Lisboa. Era o primeiro de muitos desgostos que esperavam por mim.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 1 março 2012

Nunca um produtor me procurará para fazer um filme, terei de me remeter à minha insignificância. E conformar-me com o inesperado interesse das duas editoras que recentemente procuraram saber se estaria disposto a escrever um livro sobre os 50 anos de carreira que completarei em 2014 – se lá chegar, que a vida não está fácil e o jornalismo então… valha-nos Deus.
Não quero comprometer-me. Já estou na estrada dessa escrita mas preciso de avaliar, lá mais para o final do ano, se as notas que vou juntando têm pernas para andar, ou seja, se uma possível edição poderá ser útil aos jornalistas que se iniciam na profissão e fará justiça a tantos nomes da comunicação social com que me cruzei pontualmente, ou mesmo trabalhei, uns brilhantes e outros banais, uns a puxarem-me para a frente, outros a tentarem atirar-me para trás – para trás deles, claro.
Não vou acertar contas, jamais aceitarei viver debaixo da nuvem do ressentimento e muito menos sentir uma vontade de vingança, espúria e menor, que me atingiria primeiro a mim. Mas factos são factos e tenho uma face da verdade para talvez contar, na esperança de que os erros que cometi, os golpes de sorte de que beneficiei e as estratégias de natureza individual que me permitiram perseguir interesses e concretizar objectivos possam servir não diria de exemplo, apenas de experiência para quem acredite que se aprende alguma coisa conhecendo o que aconteceu a outros.
Terei, naturalmente, de começar por aquela tarde de julho de 1964 em que sacudi a minha terrível timidez de adolescente e entrei nas instalações do Mundo Desportivo para perguntar ao chefe da redação do trissemanário, o jornalista José Valente, se estaria interessado em que eu fizesse a reportagem dos Jogos Internacionais da FISEC, que se disputariam no mês seguinte, em Espanha, e nos quais iria participar como atleta. 
Aprovada a ideia, desci a quatro e quatro os degraus do mítico edifício da Empresa Nacional de Publicidade, feliz como se me tivesse saído uma fortuna. Estava muito longe de imaginar que 38 anos depois voltaria a subir as mesmas escadas, então para entrar no gabinete destinado ao director do 24 Horas. Mas também não sonhava que o homem que tão generosamente me recebera seria despedido, poucos meses mais tarde, não por causa das duas reportagens minhas que o jornal publicou, vá lá, mas como consequência dos estilhaços da manchete explosiva do Mundo Desportivo, após a vitória histórica (5-1) do Benfica sobre o Real Madrid: O Vale dos Caídos mudou-se para Lisboa. Era o primeiro de muitos desgostos que esperavam por mim. 

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