Crónicas da Sábado: um dia, contem-me como foi

Como recordarão os vindouros Pedro Passos Coelho? Como o primeiro-ministro que nos salvou da bancarrota e evitou o colapso total da economia ou como o político ambicioso, que prestou vassalagem aos senhores do dinheiro e fez cair de novo os portugueses na pobreza e no atraso? Com o País mergulhado num proceloso mar de ódios e paixões, dividido entre os que insultam o líder do Governo, acusando-o de só saber aumentar impostos e pôr o Estado a roubar salários e pensões, e os que o aplaudem, considerando-o um homem corajoso e determinado, que manteve Portugal no Primeiro Mundo, tenho pena de já não poder conhecer, dentro de 20 ou 30 anos, com o gelo trazido pela distância, o veredicto histórico da memória colectiva. Porque hoje reina a alternância, nada democrática, da verdade e da mentira, vivemos perante a depressão da realidade e a euforia da ficção, incapazes de analisar com lucidez e decidir com segurança. Dizia o recém-desaparecido Gabriel García Márquez que “assim como os eventos reais são esquecidos, alguns que nunca existiram podem estar nas nossas memórias como se tivessem acontecido”. Por isso, não existe solução para esta maçada que é o final do tempo e da caminhada, pelo que me resta a esperança de que um dia, em algum lugar, alguém me conte como foi. Seja para a vénia ou para a indignação.

Observador, Sábado, 15MAI14

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