Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: um avanço na leitura

Pelo quarto ano consecutivo fui de férias para Cabo Verde, tentando aproveitar as areias únicas de Santa Maria, no Sal, para limpar esta martirizada cabecinha e tentar pôr a leitura possível em dia. Certamente por ter optado por uma das semanas da Páscoa, encontrei desta vez mais portugueses, e famílias inteiras, o que me deixou satisfeito e incomodado, em simultâneo. Satisfeito, por verificar que nem a crise é tão grande assim, nem eu sou o privilegiado que o fisco pretende que me considere. Incomodado, por sentir que o sossego passa a ser relativo, já que entre tantos compatriotas encontramos sempre pelo menos um que gosta de futebol e que lê tudo – e lá se vai a redoma do anonimato total, tão cara quanto o ar que respiro. E há olhares que matam. 

Primeira leitura atrasada: a entrevista de Vítor Gaspar ao Sol. Como se o ministro não fosse, por si só, mestre no discurso monocromático, as respostas por escrito – julgo que ninguém conseguiria debitar de improviso tantas frases impenetráveis – permitiram-lhe submergir-nos numa avalancha. Exemplo: “Um dos eixos de acção da agenda de transformação estrutural é a redução de rendas e sobrecustos nos mercados de produto”. Sim, a culpa também é minha, a ignorância é uma coisa muito triste, bem sei.

Segunda leitura em atraso: a entrevista do ex-futebolista Romário à Veja. Quem tece loas ao desenvolvimento do Brasil – onde cresce uma bolha cujo rebentamento me garantem que atingirá a Lua – e critica ao mesmo tempo, e se calhar com razão, a política portuguesa, devia meditar nas declarações do eleito do PSB, pelo Rio, ao Congresso brasileiro. Pequena síntese: “De mais de 500 deputados, uns 400 não querem saber de nada. Ninguém demonstra um pingo de constrangimento em fazer teatro. A maior preocupação é dar show para a TV. Passam anos no bem-bom do poder sem cumprir uma vírgula do que prometeram. É a panelinha que manda. O que mais tem é gente que não se coça para nada, quando não sai por aí se metendo em pilantragem”. Lá como cá.

Outra leitura ainda mais atrasada: a biografia de Xanana Gusmão, da autoria da australiana Sarah Niner, um relato impressionante da evolução política e da capacidade de resistência daquele que é hoje o primeiro-ministro de Timor. E de um percurso de muitos anos pelo mato, em condições tais que é difícil compreender como pode um ser humano suportá-las e sobreviver para contar. Voltarei em breve ao tema para salientar o que julgo terem sido as três traves-mestras da acção do líder timorense: a recusa do fanatismo das facções, a antecipação do dia seguinte, e a frieza na hora de deixar a família e de ver morrer os amigos. Reencontrar Xanana em Cabo Verde – dois privilégios.

Pelo quarto ano consecutivo fui de férias para Cabo Verde, tentando aproveitar as areias únicas de Santa Maria, no Sal, para limpar esta martirizada cabecinha e tentar pôr a leitura possível em dia. Certamente por ter optado por uma das semanas da Páscoa, encontrei desta vez mais portugueses, e famílias inteiras, o que me deixou satisfeito e incomodado, em simultâneo. Satisfeito, por verificar que nem a crise é tão grande assim, nem eu sou o privilegiado que o fisco pretende que me considere. Incomodado, por sentir que o sossego passa a ser relativo, já que entre tantos compatriotas encontramos sempre pelo menos um que gosta de futebol e que lê tudo – e lá se vai a redoma do anonimato total, tão cara quanto o ar que respiro. E há olhares que matam. 
Primeira leitura atrasada: a entrevista de Vítor Gaspar ao Sol. Como se o ministro não fosse, por si só, mestre no discurso monocromático, as respostas por escrito – julgo que ninguém conseguiria debitar de improviso tantas frases impenetráveis – permitiram-lhe submergir-nos numa avalancha. Exemplo: “Um dos eixos de acção da agenda de transformação estrutural é a redução de rendas e sobrecustos nos mercados de produto”. Sim, a culpa também é minha, a ignorância é uma coisa muito triste, bem sei.
Segunda leitura em atraso: a entrevista do ex-futebolista Romário à Veja. Quem tece loas ao desenvolvimento do Brasil – onde cresce uma bolha cujo rebentamento me garantem que atingirá a Lua – e critica ao mesmo tempo, e se calhar com razão, a política portuguesa, devia meditar nas declarações do eleito do PSB, pelo Rio, ao Congresso brasileiro. Pequena síntese: “De mais de 500 deputados, uns 400 não querem saber de nada. Ninguém demonstra um pingo de constrangimento em fazer teatro. A maior preocupação é dar show para a TV. Passam anos no bem-bom do poder sem cumprir uma vírgula do que prometeram. É a panelinha que manda. O que mais tem é gente que não se coça para nada, quando não sai por aí se metendo em pilantragem”. Lá como cá.
Outra leitura ainda mais atrasada: a biografia de Xanana Gusmão, da autoria da australiana Sarah Niner, um relato impressionante da evolução política e da capacidade de resistência daquele que é hoje o primeiro-ministro de Timor. E de um percurso de muitos anos pelo mato, em condições tais que é difícil compreender como pode um ser humano suportá-las e sobreviver para contar. Voltarei em breve ao tema para salientar o que julgo terem sido as três traves-mestras da acção do líder timorense: a recusa do fanatismo das facções, a antecipação do dia seguinte, e a frieza na hora de deixar a família e de ver morrer os amigos. Reencontrar Xanana em Cabo Verde – dois privilégios.