Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: só um pequeno pormenor

Pertenço à minoria de portugueses privilegiados que aceitam a progressiva perda da sua qualidade de vida por imperativo moral: com tanta gente a debater-se com efetivas dificuldades de sobrevivência, quem vive melhor tem o dever de ficar calado ou, pelo menos, de falar baixinho. Não integro, por isso, nem o grupo de fanáticos que odeia Passos Coelho porque sim, nem a ninhada em debandada que procura saltar do barco antes que se afunde, nem o corpo de exaltados que desce às ruas em protesto não propriamente pelas medidas de austeridade mas porque o Governo não pára de lhes ir ao bolso.

Ainda hoje não entendo para que veio tão cedo o PM prometer o dilúvio para 2013, se já ouvia das boas pelos cortes generalizados e anunciara ir reduzir os escalões do IRS, uma decisão cuja consequência é sabida: vai voltar a disparar o imposto sobre o trabalho. Para não valorizar sequer o problema do défice de 2012, que forçará o Governo, dentro de dias, a novas e trágicas medidas. Como tinha poucos problemas, PPC resolveu arranjar mais.

E se é certo que não havia corrido bem a declaração de sexta-feira 7, pior foi o que aconteceu na entrevista à RTP, há uma semana, quando um milhão e meio de telespetadores – mesmo assim menos do que aqueles que viram as telenovelas da SIC nessa noite, o que diz bem do país que temos – descobriu a aflitiva impreparação do líder do Executivo para responder a dois jornalistas de indiscutível qualidade mas que não são pesos-pesados do debate televisivo.

A facilidade com que Passos Coelho permitiu que o interrompessem e se ficou por meias respostas e meios esclarecimentos, recorrendo a expressões de enfado em vez de meter os entrevistadores na ordem e iniciando a réplica a uma nova questão com a anterior por concluir, revelou que deu à imagem que deixaria nos portugueses, finda a entrevista, uma importância ao nível das horríveis bandeiras de plástico – made in China? – colocadas junto à parede.

E aí temos o problema. PPC passou a ideia – e agora também ao seu eleitorado natural, provavelmente reduzido já a menos de 20% – que tudo é tratado com ligeireza. Hoje aumentam-se os impostos e suspendem-se os subsídios, amanhã reduzem-se salários e pensões, e cortam-se prestações sociais, a seguir sobe-se o IVA e mais o que logo se verá. Com esta postura, o primeiro-ministro acabou com a paz social, pôs os seus seguidores com as calças na mão e perdeu o país.

Mas tendo o Zé pagante todos os motivos para protestar e até para querer ver Passos Coelho pelas costas, só há uma pequena coisa que me preocupa: qual é a alternativa? Como iremos liquidar a nossa dívida aos usurários? É que sobre esse pormenorzinho só vejo assobiar para o ar… 

Pertenço à minoria de portugueses privilegiados que aceitam a progressiva perda da sua qualidade de vida por imperativo moral: com tanta gente a debater-se com efetivas dificuldades de sobrevivência, quem vive melhor tem o dever de ficar calado ou, pelo menos, de falar baixinho. Não integro, por isso, nem o grupo de fanáticos que odeia Passos Coelho porque sim, nem a ninhada em debandada que procura saltar do barco antes que se afunde, nem o corpo de exaltados que desce às ruas em protesto não propriamente pelas medidas de austeridade mas porque o Governo não pára de lhes ir ao bolso.
Ainda hoje não entendo para que veio tão cedo o PM prometer o dilúvio para 2013, se já ouvia das boas pelos cortes generalizados e anunciara ir reduzir os escalões do IRS, uma decisão cuja consequência é sabida: vai voltar a disparar o imposto sobre o trabalho. Para não valorizar sequer o problema do défice de 2012, que forçará o Governo, dentro de dias, a novas e trágicas medidas. Como tinha poucos problemas, PPC resolveu arranjar mais.
E se é certo que não havia corrido bem a declaração de sexta-feira 7, pior foi o que aconteceu na entrevista à RTP, há uma semana, quando um milhão e meio de telespetadores – mesmo assim menos do que aqueles que viram as telenovelas da SIC nessa noite, o que diz bem do país que temos – descobriu a aflitiva impreparação do líder do Executivo para responder a dois jornalistas de indiscutível qualidade mas que não são pesos-pesados do debate televisivo.
A facilidade com que Passos Coelho permitiu que o interrompessem e se ficou por meias respostas e meios esclarecimentos, recorrendo a expressões de enfado em vez de meter os entrevistadores na ordem e iniciando a réplica a uma nova questão com a anterior por concluir, revelou que deu à imagem que deixaria nos portugueses, finda a entrevista, uma importância ao nível das horríveis bandeiras de plástico – made in China? – colocadas junto à parede.
E aí temos o problema. PPC passou a ideia – e agora também ao seu eleitorado natural, provavelmente reduzido já a menos de 20% – que tudo é tratado com ligeireza. Hoje aumentam-se os impostos e suspendem-se os subsídios, amanhã reduzem-se salários e pensões, e cortam-se prestações sociais, a seguir sobe-se o IVA e mais o que logo se verá. Com esta postura, o primeiro-ministro acabou com a paz social, pôs os seus seguidores com as calças na mão e perdeu o país. Mas tendo o Zé pagante todos os motivos para protestar e até para querer ver Passos Coelho pelas costas, só há uma pequena coisa que me preocupa: qual é a alternativa? Como iremos liquidar a nossa dívida aos usurários? É que sobre esse pormenorzinho só vejo assobiar para o ar… l

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 20 setembro 2012