Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: sinais dos tempos – 3

1. Aprendi a
nadar com um mergulho, já um pouco tarde, ia nos 13 anos. Brincava com o mar na
praia da Parede,
numa rara nesga de pedra plana, quando veio uma onda mais forte
e da cabeça enrolada lá em baixo até ficar fora de pé decorreram dois segundos,
pelo que houve que dar às pernas e aos braços para voltar a pisar os
pedregulhos. Anos depois, senti-me atraído pela caça submarina, ainda me iniciei
na prática, só que o silêncio das profundezas mete demasiado respeito e o
desconhecido perturba-me. Deixei-me de frescuras na altura própria e hoje só
mergulho para não me assar a careca. A aventura é boa para radicais como o
Manzarra, portanto, fazem eles muito bem.

2. Se Miguel
Relvas é o bombo da festa dos inimigos do Governo, o Álvaro é a escolha clássica para bobo da
corte. Tem-se posto a jeito algumas vezes, tanto tem sido o seu deslumbramento
pelo exercício do poder – um fraco poder bem vistas as limitações que o cercam.
O discurso também não é brilhante, pois a situação força-o a refugiar-se em
trivialidades. Mas os últimos dias foram fatais para os que pretendem ver nele o
pateta da governação. A cena
canalha que lhe prepararam na Covilhã enfrentou-a Santos Pereira com a coragem
dos grandes e a nobreza dos homens de consciência limpa que servem o País o
melhor de que são capazes. A saída da zona de conforto para dar o peito às balas, perante manifestantes
cuja postura fazia prever o pior, fica como prova do carácter de um ministro que
– trabalhando mal ou bem, isso é outra questão – deu uma bofetada de luva branca nos detractores, honrando o
Executivo a que pertence e justificando a admiração daqueles portugueses que se
revêem, como eu, na dignidade da sua atitude.

3. O Europeu
voltou a provar que no futebol são as equipas, e não apenas as individualidades,
que verdadeiramente contam. O caso de Portugal é sintomático. A generalidade da
crítica apontava para Cristiano, Pepe, Nani e para mais oito rapazes jeitosos e desenrascados. Afinal, esses
oito  – Rui Patrício, João Pereira, Bruno Alves, Coentrão, Veloso, Moutinho,
Meireles e Postiga – acabaram por rubricar um desempenho notável e a equipa
funcionou como um bloco. Faltou que Cristiano concretizasse um dos seus livres
directos, perto do fim do jogo das meias, ou que tivéssemos a sorte que
sorriu à Espanha nos penáltis, para irmos à final e sermos hoje, muito
provavelmente, campeões europeus. Mais um caso de sucesso do pontapé na bola no
país das depressões.

4. E por falar
em depressões: não vale a pena desgastarmo-nos na vã tentativa de contrariar a
inevitabilidade da próxima. É óbvio que o subsídio de Natal vai voltar a ser
atacado. Se sobrará uma pequena parte – eis a única
dúvida.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 5 julho 2012. Tema de Sociedade da semana: mergulhos…