Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: Rosalina

Como diz um amigo, a situação é irremediável, estamos velhos, ponto. Confesso que não desgosto de envelhecer, ou seja, o fenómeno abala-me mas não tanto quanto antes supunha. Mais doloroso, muito mais doloroso é ver o desaparecimento daqueles de quem gostamos e que tínhamos a certeza de que gostavam de nós. A cada que parte a sensação de perda é maior, olhamos em volta e apercebemo-nos da existência de um nevoeiro lento, cruel e incontornável – a solidão avança, começamos a ficar sozinhos.

Vivi muitos anos convencido de que ter quatro ou cinco filhas me faziam não só um homem rico, mas também alguém a quem não faltaria um dia o abraço quente que sempre escasseia quando o outono cede, enfim, lugar ao inverno do qual não mais se sai. É claro que me enganei. Afinal, os filhos são do Mundo e cumprem a sua própria jornada, arranjam companheiros, criam as crianças, enfrentam novos problemas e desafios, trilham outros caminhos – e vão para longe mesmo que fiquem perto.

A nossa segurança está, sim, nas raízes. O calor da família e o amor desinteressado, aquele que raramente nos falha, é o que vem detrás. Senti isso há oito dias, com o passamento da minha tia Rosalina, irmã do meu pai, uma mulher de grande caráter e firme nas opções, que iam da fé na Igreja à solidariedade com a comunidade, da paixão pela fotografia à cultura da conversa, do voto crítico mas definitivo – de quatro décadas! – no PS à leitura fiel dos diários e da SÁBADO. Deus, em quem tanto acreditava, concedeu-lhe a graça da partida serena, aos 95 anos, com independência, atividade e lucidez até ao derradeiro suspiro.

Professora em Alvados, Folhadal, Caldas da Felgueira, Póvoa de Santo António e Urgeiriça – onde a vemos, na foto de há 35 anos, com parte da sua última classe de alunos – moeu-me o juízo na infância com lições de Português, em particular com os erros ortográficos que me custavam, cada um, uma reguada e a escrita repetida das palavras. Com isso, traçou-me o destino. O seu exagero no rigor e na disciplina, e a determinação de ferro marcaram-me a fogo – ainda hoje não sei o que é chegar atrasado ao que seja. Como disse, no elogio fúnebre, o Padre Nuno, de volta a Canas de Senhorim para o efeito, ela “tinha nas convicções a firmeza do metal cravado na pedra”. É tarde, mas procurarei imitar-te – e obrigado por tudo o que me deste, Rosalina.

Observador, Sábado 13MAR14

Rosalina79