Crónicas da Sabado: rendido à evidência – 2

1. Esta história do sexo nos quartéis é idêntica à do sexo durante a rodagem de um filme ou à do sexo dos escravos dos faraós à sombra das pirâmides: enquanto houver homens, mulheres e gente assim-assim teremos ação. Lembro-me sempre da diretora de um colégio onde tive a desdita de cair, que no início do ano letivo proibia os alunos de namorarem com as alunas de outro colégio situado no lado oposto da rua. Ainda outubro não terminara e andávamos todos comprometidos. A realidade comanda a vida.

2. Escrevo estas linhas antes de serem conhecidos os novos cortes de Coelho & Gaspar para compensar a falha de receitas provocada pelo chumbo do Tribunal Constitucional. Não é preciso ser bruxo para adivinhar o que aí vem  depois da garantia do líder do Governo de que não procederá a novo aumento de impostos: teremos de pagar mais impostos. A ameaça de roubar os reformados com mais uma taxa, agora para a Segurança Social que já lhes ficou com o dinheiro e o derreteu, diz tudo sobre a pessoa de mal em que o Estado se transformou.

3. Como se não bastasse a depressão coletiva, a chuva e o frio massacraram -nos nos últimos seis meses. Finalmente, foram-se e apareceu o bom tempo, e mesmo o calor que confirma que a primavera é estação finita. Luto contra esta paranóia, mas a verdade é que me sinto menos pessimista sabendo que as barragens estão cheias e que a seca não virá no verão para me atormentar – a mim e às ovelhinhas. A angústia em que vivemos, chega.

4. Dezenas de jornalistas perdem os postos de trabalho todos os anos e centenas de novos licenciados são lançados às feras de um mercado fechado. É mau para os sonhos de tantos jovens e bom para o crivo que seleciona capacidades. Candidatos à profissão que vêm estagiar para uma redação e não interagem com aqueles que os rodeiam – muitos, nem bom dia… – erraram na vocação e ainda bem que nunca serão jornalistas. É que o estágio funciona igualmente como um teste de inteligência: se não conseguem entender que podem estar perante uma oportunidade que não se repetirá, ficamos logo conversados.

5. Sócrates lá vai perdendo na guerra das audiências para Marcelo, que atravessa, aliás, uma fase quase imbatível ao dizer aos telespetadores o que eles querem ouvir. Enquanto o ex-primeiro-ministro ocupa o seu tempo a acertar contas com o passado, o professor aproveita para zurzir o Governo com a dureza própria de Louçã. No último domingo, classificou Vítor Gaspar de “político com p pequeno” e repetiu que Passos Coelho “só compreenderá” o erro de ter cortado as pontes com o PS no dia das eleições – “sejam elas quando forem” –, uma premonição mortal. Com este registo, Sócrates não tem hipóteses.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 18 abril 2013. Tema de Sociedade da semana: sexo nos quartéis 

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