Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: pílulas CSI para dormir

Não tenho grande experiência de dormir a trabalhar. Só me lembro mesmo das intermináveis madrugadas na onda curta da Emissora Nacional, entre a uma e as sete da manhã, nos idos de 60, quando algumas emissões de duas ou três horas, para a Índia ou coisa que o valha, nos permitiam breves minutos de relax na alcatifa do estúdio. Mas como podia aparecer de surpresa um chefe daqueles graúdos e havia sempre voluntários para ir comprar pão quente e chouriço a uma fabriqueta da zona da Rua de São Marçal, perto do Parlamento, acabava-se por trocar o sono pela comidinha. E pela bebidinha, que não era o meu caso mas lá que ela jorrava generosamente, isso jorrava.

Muito mais tarde, estive num semanário em que a vida fluia, o que facilitava o vício de um dos responsáveis da redacção, também ele amigo da pinga, que batia uma sornazinha logo após o almoço bem regado, colocando-se estrategicamente em frente ao computador de modo a que, mal alguém se aproximasse do gabinete, ele pudesse começar a mexer no teclado.

Mas se não durmo em serviço, o que só de pensar me aflige, é igualmente porque, em vez de herdar os genes do meu pai, que descansava um mínimo de 10 horas em cada 24, fui buscar os da minha mãe, que noite em que consiga sossegar três horas já tem motivo para içar, de manhã, a bandeira na janela. Ora, se sinto dificuldade em dormir quando devo, entre as duas e as sete e meia, na melhor das hipóteses, o que me interessaria passar pelas brasas durante o dia?

Claro que a necessidade aguça o engenho e vivo nesta altura do meu campeonato um momento particularmente feliz no combate, que é duro, ao crónico tormento para adormecer. Tudo começou – estava eu muito longe de sonhar com o que me ia acontecer – há uns dois ou três anos, quando adquiri a primeira série do CSI Las Vegas, a que se somaram, a ritmo compulsivo, as outras seis à venda em Portugal, bem como todas as do CSI Miami e do CSI Nova Iorque, quase duas dezenas no total, ou quatro centenas de episódios – se quisermos verificar a real dimensão da paranóia.

Se o leitor ainda não alcançou o que tem a ver o CSI com o meu sono, passo a explicar. É que, ao contrário do que sucede, por exemplo, com os jogos da NBA, que se me ponho a acompanhar fico agarrado ao resultado, as intrincadas tramas criadas pelos autores da série obrigam a uma tal atenção para se poder seguir a lógica das investigações, que o meu martirizado disco rígido cede, desiste de girar, creio, e lá caio finalmente nos braços de Morfeu. Uma noite destas, a ver se resisto a um caso até ao fim. Como isto anda, preciso mesmo de ter a certeza que os criminosos foram apanhados. Ao menos esses.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 7 abril 2011. Tema de Sociedade da semana: pessoas que dormem no trabalho