Crónicas da Sábado: perdeu-se uma estrela

Luís Pereira de Sousa integra as minhas memórias do Quelhas 2. Tenho bem presente o dia em que um colega dos serviços de Gravação da Emissora Nacional, que colaborava com o Rádio Clube de Moçambique, me explicou, no início da década de 70 – e com manifesta admiração – quem era o homem. Passei a acompanhar desde então a sua carreira e a desesperar-me, anos depois, com o demérito de programas que apresentou.

Cometi esse erro, o de confundir o que deve ser separado. Os comunicadores, e entre eles os jornalistas, nem sempre fazem o que gostam, muitas vezes fazem até o que detestam, e merecem que não misturemos a sua capacidade individual com as tarefas que são obrigados a cumprir. E olhando para trás, e também para o que se seguiu na rádio e na TV, parece-me evidente que Luís Pereira de Sousa merecia ter tido outra carreira e outro reconhecimento.

Creio que metade do problema foi criada pelo próprio, pelo seu carácter inconstante e pelo arriscado desalinhamento face aos lobbies, políticos e outros, que marcaram a sua época. Isso fez com que se lhe colasse uma imagem popular, ou seja, a do profissional que ia ficando para trás e que só se chamava para uma qualquer coisa destinada a encher chouriços.

Destaco, como exemplo, aquelas tardes da RTP, com um directo da antiga Feira Popular, que o Luís apresentava com uma senhora que vinha da área da moda – mas da mais pobrezinha – e cujo nome, tal como o do programa, sinto a felicidade de não me recordar: era algo de monstruoso, isso era.

Nesse tempo, ainda existia crítica de televisão, e alguns arrivistas, que percebiam tanto daquilo como de lagares de azeite, assestavam invariavelmente as baterias sobre os infelizes que ficavam com os trabalhos que mais ninguém queria. Luís Pereira de Sousa, afinal um pioneiro dos projectos de TV para grandes audiências que chegariam com os canais privados, foi um bombo da festa dessa gente. E se procurar bem no baú dos disparates que escrevi nestes 40 anos, sou capaz de encontrar igualmente alguma achega, de que só não me arrependo porque fez parte do meu percurso e ponto final.

Aliás, o arrependimento, além de para nada servir quando o pecado não desonra, é talvez o que nesta altura me afasta de Luís Pereira de Sousa. Li há dias uma entrevista, ao i online, em que o comunicador dizia estar arrependido de todos os programas que fez. Compreendo-o quando os considera um processo de aprendizagem, mas lamento que não tenha feito da sua incrível experiência a ponte para ser hoje, aos 70 anos, uma estrela da comunicação social. O cromo que vemos em Último a Sair, sendo bom, sabe a papel de música.

Observador, crónica publicada na edição impressa de Record de 21 julho 2011

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