Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: pedregulho neles!

Anda toda a gente muito irritada com
o peregrino agravamento das coimas que pretendem punir a não reclamação de
facturas e com o reavivar de uma lei que não pertence a este governo. Acho que
se trata mais de aproveitar uma oportunidade para desancar quem nos está a ir ao
bolso pela medida grande do que outra coisa. É que não seria possível, com a
enorme redução de funcionários públicos em curso, aumentar a vigilância do
Estado sobre o consumidor, quando nem sequer se aperta com os emissores dos
papelinhos, que são em menor número. Mas como o secretário de Estado das
Facturas quis fazer prova de vida para gozar com a gente, só se perdem as que
caem no chão. Como diria Cavaco, o outro: não há paciência para ajudantes de
ministro.

Não é que ser secretário seja assim
tão mau. Pode, mesmo, ser uma montra, uma oportunidade de mostrar serviço, de
arranjar um gancho numa empresa
na vidinha futura ou, apenas, de ficar bem visto perante a vizinhança ou de ter
o protagonismo que a profissão, se a houver, nunca deu. Pois, se nem sendo esse
o caso, até o ex-ajudante Francisco José Viegas se viu na necessidade de
divulgar a sua importante posição quanto à suposta fiscalização das facturas,
não vá cair-nos no esquecimento! Mais: temendo, quiçá, não ser contundente o
suficiente para se valorizar nas redes sociais e na blogosfera da presunção, não
hesitou em utilizar linguagem imprópria de um vulto da intelectualidade,
recorrendo, no entanto, à expressão brasileira, que sempre torna mais
cosmopolita a ordinarice. Coitado do secretário Núncio, até viu estrelas.

A propósito: com esta história do
asteróide, dou comigo a matutar no que faria se me fosse dito: como ele tem de
chocar contra a Terra, escolhe lá tu o local. Confesso que passou o tempo em que
só não matei por medo do Inferno ou da cadeia. Mas se fosse Deus e tivesse
consciência do quanto tenho andado distraído desde a fase da Criação, creio que
aproveitaria para deixar cair o pedregulho aí num deserto qualquer, cuidando,
antes, de povoar a área com todos os malfeitores que encontrasse. Desde
violadores de crianças a genocidas, numa fila para o cadafalso onde caberiam
todos aqueles que vieram ao Mundo apenas com o desígnio de torturar, matar,
fazer sofrer os outros. Ficaria por aí. Não consigo hoje estender os meus ódios
à bandidagem comum, seja a que assalta para comer, a que arromba para consumir
ou a que, mais refinadamente, se apropria do que não é seu, com descaramento,
engenho e alguma arte. Calculo o que o leitor estará a pensar, mas não. Mandaria
os responsáveis pelo roubo das nossas
pensões, cometido sobre gente indefesa, para o deserto, sim,
talvez o do Cazaquistão
que é bem longe, mas fora da zona de impacto.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 21 fevereiro 2013