Crónicas da Sábado: Os senhores Silva

Mais ainda do que os 300 mil portugueses cujo apelido é Jesus, temos uma fartura de gente conhecida por Sousa, Martins, Rodrigues, Costa, Oliveira, Pereira ou Ferreira. Quando contamos os Santos já vamos para cima de 600 mil mas nada se comparará nunca aos Silva, que são quase um milhão, segundo dados da Sociedade Portuguesa de Informação Económica.

Trata-se de um fenómeno que ultrapassa muito as fronteiras do País, da Espanha à Itália, passando pelo Brasil – e pelo incontornável Lula da Silva – e se espalha pelo Mundo. Até numas férias nas Maldivas  encontramos Silvas e mais Silvas, trabalhadores oriundos do Sri Lanka, o antigo Ceilão português, de onde nos expulsaram os holandeses no século 17, sem conseguirem substituir os Silva pelos Janssen, por exemplo, nos 150 anos que antecederam a chegada dos ingleses. Ganhando raízes, a nossa resistência é heroica.

Foi, aliás, a popularidade do nome que levou um dia Alberto João Jardim, num dos seus momentos de azeites, a classificar Cavaco como “o sr. Silva”, sublinhando dessa forma a vulgaridade não do apelido – que tem até uma origem nobre que remontará ao século X – mas da pessoa que pretendia atingir. Depois, com uma década de reinado silvista pela frente, a coisa passou-lhe.

Curiosa, também por isso, esta reportagem da SÁBADO com um autêntico ícone da cultura do corpo entre nós. O mestre Silva foi um pioneiro dessa hoje tão banal atividade e em 1985, quando abriu, na capital, o Centro Comercial das Amoreiras – igualmente o primeiro dos grandes espaços de comércio e serviços, instalado num edifício muito criticado mas que depressa se transformaria num símbolo de Lisboa – frequentar o seu ginásio, paredes meias com o cabeleireiro de Lúcia Piloto, era tão chique como subir ao primeiro andar para fazer compras na sofisticada e então muito in Loja das Meias.

Não precisamos de recuar aos tempos do industrial Alfredo da Silva, do filósofo Agostinho da Silva ou do ator António Silva para encontrarmos mais pioneiros ilustres. Temos, como contemporâneo de mestre Silva, outro precursor a quem muitos cozinheiros portugueses foram beber inspiração e arte. Refiro-me ao chef Silva que ensinou e moldou o futuro de tanta gente, apesar de não ser um comunicador e de os seus programas, repetidos pela RTP Memória, parecerem peças de museu. Mas se quisermos ficar mais perto dos dias que correm, recordemos o verdadeiro artista, esse criador que foi Tony Silva, infelizmente retirado, e que dúzias de silvecas imitam, sem graça, antes do sorteio das chamadas de valor acrescentado, nos canais de televisão. Há 30 anos, as cantigas de Tony Silva eram gozo e ficção, hoje são realidade.

Observador, Sábado, 5DEZ13. Tema de Sociedade: a vida de mestre Silva

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