Crónicas da Sábado: os mestres da caça

Portugal é um país de perseguidores de fantasmas. Talvez por ser muito alto, para a minha geração, evidentemente, e ter um tom de voz um tanto agressivo, fui bastante cedo vítima dos mentecaptos que me consideravam como alguém com quem era preciso ter cuidado – pobre de mim.

Os portugueses distinguem-se por uma característica que não pode ser dissociada da trágica situação económica e social em que o país se encontra: a preocupação com os outros, com a sua vida, a sua possível felicidade, os seus bens, o seu dinheiro e a sua sorte – a palavrinha mágica que tanto nos ajuda a suportar o sucesso alheio. Dessa preocupação não resulta o objectivo do conhecimento que permita uma actividade profissional bem remunerada, nem a gestão espartana dos recursos financeiros familiares que possa conciliar o bem estar do quotidiano com a reforma tranquila.

O que daí decorre é, antes, o simples desejo de competição, de não ficar para trás, de ser tão bom como o vizinho da frente, o colega de trabalho ou o cunhado, através da exibição dos troféus do consumo: casas e automóveis, computadores e plasmas, férias no estrangeiro e roupas de marca, gadgets e tudo o mais que prove que estamos ao nível dos maiores – mesmo que a nossa qualificação, o nosso esforço e o nosso salário sejam incomensuralvelmente menores.

Esse afã de concorrer com todos a toda a hora transportou para o interior das empresas, de algumas empresas, o germe do ódio, da feroz rivalidade que já é rainha nos partidos políticos, e que faz com que as equipas ou não se constituam com solidez ou não sejam formadas pelos melhores, mas unicamente por aqueles que resistem à perseguição dos caça-fantasmas – esses mestres da intriga, da insinuação, do disfarce e da calúnia – e se resignam, ou conseguem fazer passar essa imagem, a não ser mais do que a voz do dono.

Tem qualificação diferenciadora? Mostra inteligência superior? Trabalha mais que os seus pares? Não se ri das anedotas sem graça do chefe? Pensa pela sua cabeça e não receia emitir opiniões? Tem a ambição de ser um dia mais do que é hoje? Então, é uma ameaça ao líder e seus adjuntos, um perigoso candidato aos cargos mais bem pagos, uma pedra no sistema, um alvo a abater.

Muitas empresas públicas, em particular as que foram criadas para dar empregos às clientelas partidárias, não passam de ninhos de caçadores, não propriamente de fantasmas mas de talentos, de gente competente que possa transformar o lamaçal em eira e com isso subverter a ordem instituída. Espero que seja desta que um novo Governo comece a desbastar a canalha que por aí se instalou, a puxar o país para baixo e a aumentar a desgraça colectiva.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 8 junho 2011. Tema da semana: os caça-fantasmas

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