Crónicas da Sábado: o prazer da mesa, um prazer ameaçado

Durante anos, não digo quantos porque comigo são sempre muitos (ai, ai…), não dei nenhum valor à comida. Descobri esse prazer com uma amiga que me levou aos melhores restaurantes. Lembro-me de que mais admirado ainda do que com a apresentação dos pratos ficava com a eficácia – e alguma subserviência lamentável – do serviço. Um empregado para nos levar à mesa, outro para guardar os casacos, outro para descodificar o menu e tomar nota dos pedidos, outro para as entradas, outro para os vinhos, outro para saber se estava tudo bem e por aí fora. Essa amiga dominava por completo os segredos da gastronomia lisboeta – conhecia até a circulação dos chefs pelas cozinhas rivais – e fez de mim um meio entendido na matéria.

O que nunca fui capaz foi de saltar para o patamar de cima, o da comida esquisita, a que sempre acedem os habitués que já experimentaram tudo e que desesperam por novas sensações. Reconheço mesmo que os restaurantes ditos de luxo chocam com a minha consciência social e com o saloio que gosto de ser. Aprecio os prazeres da vida, é verdade, mas sinto-me mal com os exageros, incomoda-me o desperdício e revolta-me a ostentação.

Vivemos uma era de encerramento de empresas como nunca havíamos visto. E creio que muitas indústrias de restauração não resistirão à dureza da recessão da economia, em particular algumas das mais dependentes da classe média-média. Sobreviverá a venda de comidinha barata, com a de plástico à cabeça, e os estabelecimentos dirigidos a uma clientela efectivamente rica, que come crises logo ao pequeno-almoço e que nada pode abalar.

Além desses, os resistentes de sucesso serão os que sistematizarem as ementas sem destruírem a diferenciação, reduzirem o pessoal sem prejudicarem a qualidade do serviço e conseguirem preservar um atendimento personalizado, quase familiar. E se dispuserem, claro, a ganhar menos nos próximos anos. A cozinha regional, deslocada da origem, e a experimental ou temática, para minorias, serão as primeiras a desaparecer, esmagadas pela queda brutal do consumo que nos trouxe o final do Verão e que o Inverno agravará.

É curioso estar para aqui a dissertar sobre uma visão restrita do turbilhão de problemas que nos desaba em cima, precisamente numa altura em que o que se põe em causa são os paradigmas. Desde o dinheirinho, que volta a parecer mais seguro debaixo do colchão do que nos bancos, até aos fluxos migratórios que poderão em breve retirar gente das cidades e devolvê-la aos campos. Mas o tema, tão vasto, é em simultâneo tão simples: como iremos comer amanhã? Eis a questão – e, em boa verdade, a única.

Observador, crónica publicada na edição impressa da “Sábado” de 7 outubro 2010, cujo tema de Sociedade era a comida… “estranha”

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