Crónicas da Sábado: o paralelipípedo

Da janela de minha casa, no último andar do prédio do
Rossio onde se encontra a histórica pastelaria Suíça, eu tinha
uma vista privilegiada de um estranho Convento do
Carmo. Sobre ele, uma pala gigantesca, metálica e paralelipipédica, era
suportada por quatro enormes gruas. Admirava-me o facto de os esguios
guindastes aguentarem um peso tão brutal e pensava no que seria se um deles
soçobrasse. Como se força superior me interceptasse o receio, uma das gruas
cedeu, o toldo imenso inclinou-se e, lá do alto, tombou sobre a Baixa. Julguei
que iria morrer quando uma placa de ferro se separou do bloco-mãe e voou na
minha direcção. A sua dimensão e velocidade não me permitiriam evitá-la. Por
milagre, passou-me ao lado e desfez o quarto contíguo, enquanto gritos de
terror ecoavam pela capital, já mergulhada numa nuvem de pó. O choque tornou-se
tão insuportável que acordei. Foi um alívio, sabem como é.

Não costumo sonhar e
raramente tenho pesadelos. E se isso acontece, desperto com pouca vontade de me
recordar seja do que for. Aliás, a vida fez-me compreender cedo que os maiores
problemas surgem quando estamos acordados. Dou, por isso, à visão apocalíptica
que procurei descrever o valor que tem e que é nenhum. Mas acho curioso ter ido
sonhar com um sinistro tão absurdo e tão horroroso logo agora que se inicia um
ameaçador 2013, um ano dificílimo para a grande maioria dos portugueses e, sem
apelo, terrível e trágico para largos milhares deles.

As previsões dos analistas
dividem-se entre as altamente especializadas, as dos economistas, que
consideram ser possível ao Governo prosseguir com a aplicação das mesmas
políticas apesar dos resultados catastróficos que daí têm resultado para as
empresas e para o emprego, e as dos opinadores de rua, nos seus anónimos
achódromos, que antevêem o início da
agitação social a doer, a
fuga do CDS
do Executivo, a derrota dos partidos de direita nas autárquicas e a queda de
Passos Coelho antes do final do ano.

Não faço ideia de quem
estará certo ou errado, nem estou em fase de me preocupar demasiado com isso. A
frase do primeiro-ministro sobre as pessoas que descontaram para ter uma
reforma, “mas não estas reformas”, referindo-se às mais elevadas – e até às
atribuídas após a entrada em vigor da nova fórmula de cálculo, em 2007, que as
reduziu quase a metade –, prova que o poder se aliou de vez à demagogia e à
inveja contra a razão, a justiça e o Estado de direito. Vou, assim, desfrutar
do tempo que me resta, sabendo que, em breve, um paralelipípedo virá do nada e
me esmagará. Acredito que estar vivo neste 2013 seja uma dádiva e quero
aproveitá-la. Bom ano, leitor.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 3 janeiro 2013

Partilhar

Os comentários estão fechados.