Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: o meu amigo Silva

Os meus
anos 70 estarão para sempre marcados com a entrada no Diário de Lisboa, em Fevereiro de 1972, acabam de passar 40 anos.
Ao longo dos últimos oito, em muitas das crónicas da SÁBADO me tenho referido a
essa inesquecível fase da vida, em que encontrei uma vocação, bebi a qualidade
da derradeira ala de uma geração dourada de jornalistas, aprendi a sobreviver –
com dureza e egoísmo qb – na selva da
pulhice, tracei um destino.

Recordei igualmente nesta coluna alguns dos nomes que me impressionaram e nunca
me referi ao Silva. Chegou o dia. Mas permitam que proceda, antes, às devidas
apresentações, através da foto junta. O nosso homem é o segundo da esquerda, ao
lado da noiva, sua filha, que naquele dia de 1973 se casou. Atrás dele, vê-se o
José Neves de Sousa e, mais atrás ainda, o Eugénio Alves. O primeiro da
esquerda é o Chico Calixto, um secretário de redacção à moda antiga, com uma agenda a que nada escapava e que
derrotaria, mesmo hoje, muitos computadores mandriões. Nas costas dos noivos
ficou este escriba e, do lado direito da imagem, temos o Manuel Rodil, a
Fernanda Mestrinho e o Orlando Dias Agudo, com o Fernando Dacosta, eterno
tímido, a tentar esconder-se.

Mais ou
menos por essa altura, vivia-se no DL
o pesado consulado de Armindo Blanco, um chefe de redacção com carta branca de
Lopes do Souto, o patrão empedernido, para domar um grupo de jornalistas tão
indomável que conseguiu resistir até provocar a demissão do intruso. Foi nesse período que o incansável
Silva – que às 7 da manhã começava a trabalhar para arrumar, dentro do
possível, os destroços da jornada anterior, e cortar e ordenar por secções as
centenas de telexes que se amontoavam
havia 12 horas – se distinguiu pelo seu companheirismo e generosidade. Apesar
de ser também vítima da ira permanente de Blanco, arranjava sempre uma palavra
de simpatia e conforto para os perseguidos, e chegava a ir-nos procurar ao
café, como se fosse à casa-de-banho, quando o furibundo capataz de Souto
ameaçava que fazia e acontecia e despedia. O Silva sofreu e aguentou connosco
esse martírio.

Em 1976, fui para o Jornal Novo e
deixei de o ver. Na verdade, só muitos anos depois compreendi a importância dos
seus gestos simples. Amigo, lá onde estiveres, pede ao Calixto que não se
esqueça de mim na agenda. E até.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 19 abril 2012. Tema de Sociedade da semana: os anos 70 (foto abaixo do artista, na redação do “Diário de Lisboa”, em finais de 1973, ai, ai…)