Crónicas da Sábado: o grande carteirista

O meu
avô, os meus pais e outros familiares foram trabalhadores do Estado nos tempos
da outra senhora. E levaram
as suas tarefas a sério, dando-se a si próprios a importância que os
funcionários públicos então tinham, recolhendo mesmo um reconhecimento social
que hoje, infelizmente, já não se vislumbra. Recordo o orgulho do meu pai por,
ao longo de 40 anos, não ter faltado quatro vezes ao serviço e jamais chegar
atrasado ao seu posto de trabalho. A honra do empregado, sendo obviamente uma
qualidade de natureza pessoal, resultava muito da imagem do empregador: o
Estado era o baluarte, o protector dos cidadãos, a trincheira do Bem que
sempre barrava as investidas do Mal. Como tudo mudou!

Refiro aqui
recorrentemente o escândalo das reformas. Não daquelas conseguidas com habilidades
ou como prémio pelo fugaz desempenho de tachos obtidos por confiança
política, mas das que se construíram à força, com descontos atrás de descontos
durante décadas, e foram depois passadas a metade, ou quase, sem contemplações,
pouco antes da aposentação. Ou que são agora criminosamente reduzidas, em 25 ou
50 por cento (!), com a alegação de que o Estado, ex-pessoa de bem, gastou o
dinheiro que nunca se negou a reter, e que não só não pode liquidar o que, em
boa verdade, deve, como se transformou num caloteiro definitivo, ou seja,
continuará a não nos entregar, mês após mês, o que lhe confiámos – e fazendo-o
até ao último dia da nossa existência. Não há carteirista que produza rombo tão
profundo, tão injusto e tão cruel na economia familiar das suas indefesas
vítimas.

Neste desvio
de personalidade
o Estado encontrou o cúmplice ideal, essa hidra perversa e
inimputável que designamos por inveja social. Ela manda, de facto, na
vida de toda a gente. Ninguém se importa de descontar 11% para uma Segurança
Social que nada terá um dia para lhe dar, de ver retirado ao seu salário mensal
uma ninharia de IRS que chega aos 40% – e, somado, já lá vão 51% do
vencimento-base! – e de ver fugir no final do ano, sobre o famigerado rendimento
colectável
, outra fatia para o fisco capaz de alcançar os 46,5%, desde que
todos os que ganhem mais ou recebam uma pensão superior sejam atingidos,
prejudicados, vigarizados ainda com maior ferocidade.

Com o que
sobra do que nos levam, pagamos a seguir 23% de IVA e bem mais do que isso, por
exemplo, quando enchemos o depósito do carro. Um estudo recente apontava para
70% do seu rendimento o total de impostos suportados por cada português. Falta
só o estudo que nos dê uma ideia de como tudo isto irá acabar. E esse,
desconfio bem, será melhor não ler.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 16 agosto 2012. Tema de Sociedade da semana: carteiristas…

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