Crónicas da Sábado: o freguês do 2.º esquerdo

A idade matou-me os preconceitos. Fico satisfeito com isso porque vejo malta da minha incorporação que refinou a sua intolerância e não aceita o direito de os outros viverem segundo os próprios padrões. Mas isto é como a história de não sermos racistas e preferirmos ter amigos brancos ou de não sermos chauvinistas e darmos primazia ao convívio com portugueses. É que, mesmo considerando-me despreconceituoso, tenho de facto pouquíssima paciência para pessoas que elevam a dedicação aos animais a patamares que tornam inacessíveis a seres humanos. São frequentes os casos de amor pelos bichinhos, interpretados por quem nega um simples auxílio a um seu semelhante. Com gente dessa, sim, sou muito esquisito.

Recordo uma vizinha do segundo andar, no 27 da Travessa do Possolo, a D. Elisa, que tinha um gato preto horroroso chamado Blaqui, do inglês Blackie, que ela tratava com as mais requintadas mordomias. Eram os tempos do famoso carapau de gato, que as peixeiras vendiam na rua a preços módicos e que as madames arrematavam para dar aos bichanos.

Mas a boa da Elisa, uma solteirona que vivia com um irmão embarcado, e cuja companhia de meses era apenas o Blaqui, não olhava a despesas e quando se esgotava o stock de carapau lá vinha o belo do cachucho, do chicharro ou da faneca, hoje peixes menos frequentes nos mercados e por isso mais caros, mas que naquela altura, pelos anos 50 e 60, recolhiam a preferência de pobres e remediados.

Manda a verdade que se acrescente que o artista do segundo esquerdo era de boa boca e nada esquisito. Quando escasseava o peixinho fresco, a dona ia ao talho e comprava iscas bem fininhas, que fritava depois como se fosse para pôr na mesa e que o gato tragava com uma voragem inaudita. Estou a vê-lo no meio da cozinha, enorme e de pança inchada, com a língua vermelha, aos círculos, a retirar da bigodaça os restos de molho e a emitir lânguidos miaus de agradecimento pela refinada qualidade do tacho.

Talvez essa experiência me tenha impedido de meter lulus em casa e feito resistir a residuais apelos das minhas filhas para adquirir um cãozinho, até por saber que depressa seria eu a levantar-me de madrugada para levar o freguês à rua. Aliás, não consigo entender que conceito de higiene têm aqueles que dormem com animais cujas patas passam directamente do esterco da rua para a alvura dos lençóis. E que se deixam lamber – e muitas vezes na boca, oh céus!… – por amigos que acabaram de limpar com a língua partes do corpo onde se acumulam bichezas da pior espécie. Mas, enfim, no seu espaço cada um é rei. E como não me beijam na boca a mim, que lhes faça bom proveito.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 12 maio 2011

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