Crónicas da Sábado: o Covenant não passará

O Halo provoca-me
descargas de adrenalina
tão violentas que temo
ser abatido à traição

Como ainda sou do tempo dos brinquedos de madeira e tive numas geringonças da Meccano e num comboio elétrico da Marklin os meus passatempos de infância preferidos, cheguei tarde ao universo dos videogames.

Devo ter começado em 1995, com uma consola Nintendo 64, por causa de um jogo do Super Mário que uma das minhas filhas me exigiu com a inflexibilidade própria dos poderosos, e que constituiu o início de uma coleção que parecia não ter fim. Depois surgiu a PlayStation2, com propostas mais dirigidas a adolescentes, o que fez da velha Nintendo uma peça do museu familiar ou, melhor dito, um investimento útil apenas por ter feito a felicidade de uma criança. E do respetivo progenitor, essa é que é a verdade.

Aliás, ainda hoje me sinto frustrado por nunca ter descoberto duas – unicamente duas, que raiva! – das cento e tal estrelas douradas que me permitiriam ter concluído com sucesso a primeira aventura do Super Mário. Por vezes até, em reuniões de trabalho, dou comigo a pensar – enquanto finjo estar atento à dissertação de alguém que fala do que não me interessa – onde se esconderiam as malfadadas estrelas que os engenheiros da Nintendo furtaram à minha sagacidade videogâmica. Tenho lá a consola, quem sabe se um dia…

O problema é que a série Halo, lançada no final de 2001, mas a cujos atrativos só soçobrei há meia dúzia de anos – com o segundo jogo da saga do Master Chief, um supersoldado cibernético em luta contra o Covenant, mortífera aliança de raças alienígenas –, me toma o pouco tempo disponível para brincar aos polícias e ladrões dos tempos modernos.

Não é que eu seja um viciado, creio manter incólume a qualidade de fazer sempre o que devo antes de fazer o que quero, o que verifico é que as exigências do Halo, que vão da rapidez de raciocínio à leveza do dedo no gatilho, passando por alguns truques não detetáveis à primeira vista, contribuem para a minha saúde mental – ao limpar-me a cabeça das tragédias do quotidiano – e combatem aquela parte do envelhecimento que se traduz na redução da capacidade para tomar decisões e agir em conformidade. No Halo, que em nove anos vendeu mais de 35 milhões de cópias, a hesitação é o fim do Master Chief e da nossa civilização.

A derradeira missão, Halo Reach, que nem quero acreditar que seja realmente a última, provoca-me mesmo descargas de adrenalina tão violentas que vou ter de perguntar à médica que me atura se não poderão os precursores do Covenant, fartos de serem eliminados sem piedade, abater-me à traição. Não é que tudo não tenha um fim, mas incomoda-me a hipótese de ser apanhado, ainda por cima sentado, por aqueles estúpidos macacóides.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 11 novembro 2011, cujo tema de Sociedade são os jogos de computador

Nota: No texto publicado em papel, aparece errada a versão da Nintendo que acima refiro corretamente.

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