Crónicas da Sábado: nem um mililitro de silicone

Se tudo o
que contribui para melhorar a nossa realidade é bem-vindo, o silicone só podia
transformar-se num enorme sucesso. Até à sua chegada ao mercado, as mulheres
dependiam em exclusivo das qualidades próprias de representação para fingirem
ser o que não são – uma arte a que recorrerão até ao final dos tempos – e de
umas próteses manhosas para compensarem a escassa generosidade da mãe Natureza,
ou a sua total ausência.

Devo começar por confessar que não tenho uma boa relação com os implantes em
roda livre e que me senti mesmo agredido quando, em recente reality show, uma menina à beira da
explosão, com lábios, peito e rabo literalmente a rebentar pelas costuras,
ameaçou, com chocante desfaçatez, “meter mais um litro” de silicone nas
disformes mamas. E maior confusão me faz que haja especialistas sem pudor
suficiente para colocar um travão na excentricidade destas clientes, evitando
poluir o meio ambiente com mais umas aberrações. Bem, talvez não seja assim
tanta a confusão, pois a lei da selva espalha-se por todos os sectores de
actividade e, afinal, pouco restará que desgraçadamente não se resolva com um
punhado de notas.

Já a utilização moderada da substância me parece aceitável. Em especial em casos em
que a falta de volume dos seios ou nádegas descaídas, ou metidas para dentro, causam – numa sociedade materialista dominada
por doentios esteriótipos de beleza e de competição – perturbações psicológicas
que por vezes se revestem de graves contornos.

Mas onde o uso do silicone é mais do que adequado, podendo até considerar-se
uma dádiva divina, é na cirurgia reconstrutiva, que consegue hoje anular
significativamente, ou quase por completo, os danos físicos provocados por
acidentes ou por intervenções que implicam remover o que se estragou. Aí a
matéria faz milagres e ajuda muita gente a regressar à vida e a recuperar o
sorriso. Abençoado silicone, esse sim.

Dou comigo a pensar, escritas as banalidades acima, sobre que destino terá Deus
reservado para os meus últimos dias, sejam lá eles quando forem. É que tive
pais decentes, que me transmitiram valores, e filhas magníficas que só me deram
alegrias. Aturaram-me mulheres infinitamente pacientes e namoradas a que mal
correspondi. Não fiz tropa e não fui à guerra colonial. Escolhi a profissão e
pagam-me para fazer o que gosto. Conheci pessoas excelentes e
sobraram-me meia dúzia de amigos fantásticos. Comi em grandes restaurantes,
viajei, e li, vi e ouvi o que de melhor podia ter desfrutado. E, oh glória!,
nunca toquei num corpo com um mililitro de silicone. Morrerei assim.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 9 fevereiro 2012

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