Crónicas da Sábado: Natascha Kampusch e Carlos Castro, duas autobiografias

Gosto de biografias, desde que não sejam escritas pelos próprios, nem pelos inimigos. Os protagonistas tentarão sempre ampliar a sua importância na História, ou mesmo numa história pequenina, e os seus detractores nada mais pretenderão do que ganhar algum dinheiro e denegrir ao máximo a verdadeira dimensão do visado, procurando reduzir-lhe o estatuto social. Enfim, podemos dizer que… é dos livros.

Quando a obra tem o autor como figura central, e esse é o caso de Natascha Kampusch na descrição dos 3 096 dias de cativeiro, é difícil que lá encontremos os pormenores mais escabrosos – por mim tão dispensáveis como toda a narrativa, que nem em diagonal lerei – de uma experiência que, para ser brutal, basta ter acontecido. Mas, provavelmente, nem a tortura a que a jovem foi sujeita, do ponto de vista psicológico, nos será apresentada com realismo e rigor. Aos 22 anos, com a adolescência destruída, Natascha não terá resistido a exorcizar os demónios que a perseguem, substituindo a verdade pura e dura por uma outra, que entretanto construiu e que lhe permitirá seguir em frente. Não se trata de mentir, apenas de retocar uma imagem que lhe torne o futuro menos penoso – aos olhos da opinião pública, já que dos seus jamais se retirarão os sinais do passado.

Só agora, após o desaparecimento de Carlos Castro, me vejo confrontado com uma espécie de autobiografia, Solidão povoada, um título mais eloquente do que a prosa. A páginas tantas, o autor reproduz um elogio, um merecido elogio que lhe fiz a propósito de uma Gala dos Travestis, que organizava e encenava anualmente com uma competência que deixava a anos-luz a sua arrevesada escrita, destituída de conteúdo e pouco amiga da gramática.

O infortunado cronista social dispunha, na realidade, de um grande talento para o espectáculo. Não era por acaso que nas regulares viagens, de muitos anos, a Londres e a Nova Iorque, via peças e musicais atrás uns dos outros. Desse modo, ele apurou uma noção correcta do ritmo e um sentido global do espectáculo – evidentes, aliás, nos pequenos shows que levou às discotecas de todo o país – que só podiam, por cá e entre os profissionais da mesma geração, ser ultrapassados pelo génio de Filipe La Féria.

Infelizmente, Portugal não tem teatro comercial, La Féria sofre horrores para manter de pé a sua sala, e Carlos Castro não dispunha, nessa área, de hipóteses de sobrevivência. Foi isso, estou certo, que o levou a caminhos alternativos de doloroso amadorismo e que fez dele um peixe fora de água. E quando não se respira bem, tudo na vida é diferente. A fantasia pode matar.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 27 janeiro 2011

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