Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: não são normais

Para os leitores que não sabem quem foi José Maria
Pedroto, eu explico. Era médio do Belenenses, em 1952, quando
o FC Porto pagou por ele 500 contos, a mais cara
transferência do futebol português até à altura. Depois de pendurar as botas,
passou a treinador e depressa se transformou no que já fora como jogador: um
profissional de top. Senhor de uma
inteligência superior e adiantado no tempo – esse raro dom que distingue, em
qualquer atividade, o crème de la crème
– foi um técnico revolucionário, sagaz no pensamento e duro no discurso,
percursor dos grandes êxitos portistas que se seguiriam, amado por uns, temido
por outros, respeitado por todos e conhecido no mundo do pontapé na bola como Zé do Boné.

Quando eu era diretor do
semanário Off-Side e Pedroto
treinador dos portistas, nos idos de 80, mantive com ele uma interessante
conversa, obviamente dominada pelo futebol. Em dado momento, perguntou-me:
“Você acha que um homem que se sujeita a cuspidelas, insultos e agressões,
durante vários anos, pelos campos mais agrestes desse país, até chegar à
primeira categoria, pode ser considerado uma pessoa normal?” Referia-se aos
árbitros e, perante a minha surpresa, deu-me logo a resposta: “Como não são
seres normais, temos de lidar com eles tendo em conta essa caraterística”.

Dou comigo a recordar o
animado serão com o Zé do Boné ao ver
na televisão mais uma manifestação contra Passos Coelho, e interrogo-me se esta
gente que está no Executivo, numa tão áspera esquina da História, será normal.
Como conseguem jantar fora, andar às compras, ir ao cinema, beber um simples
café ao balcão, suportar o olhar
assassino
da animosidade coletiva?

Integro o grupo dos milhões
de portugueses que se sentem fartos deste primeiro-ministro. Acompanho
igualmente aqueles milhões que não se convencem que do brutal combate ao
consumo possa renascer uma economia capaz de pagar a nossa dívida. E temo
ainda, como os mesmos milhões, o que parece bem provável: o CDS a saltar do
barco mal o primeiro controlo das contas, em 2013, confirme o falhanço desta
política, o colapso social a surgir assim que se for o verão, o Governo a cair
após as eleições autárquicas e o céu a desabar-nos sobre a cabeça antes do
final do próximo ano.

Mas desconfio que terei
também a companhia de milhões de compatriotas ao manifestar a minha admiração
por Passos Coelho e seus ministros, pela determinação e coragem com que
enfrentam tudo e todos em nome daquilo em que acreditam. E sabendo, como sabem,
que mais cedo que tarde os mandaremos para casa, sem um obrigado, antes com ingratidão e alívio.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 20 dezembro 2012