Crónicas da Sábado: não são humanos

Os
escritos nas portas das casas-de-banho são, talvez, o mais antigo sinal de disfunção
social
de que me recordo.
Interroguei-me sempre sobre o que fará com que certa gente
se entregue a esse trabalho sujo, mas conforme fui conhecendo as pessoas
compreendi o poder das frustrações. E a atração pelo proibido, que leva o ser
humano (?) a encontrar-se com o que verdadeiramente é quando a solidão lhe
garante a impunidade, reavivando, com isso, o castrado desejo de quebrar as regras
e descer ao bas-fond onde se albergam os sentimentos mais obscuros.

A minha
experiência profissional no Record trouxe-me à realidade de um mundo
estranho e perverso, habitado por seres de outros planetas, que odeiam a
generosidade, a gentileza ou as simples boas maneiras, desdenham da isenção e
do equilíbrio, ignoram a razão e desprezam a verdade, recorrendo genericamente
ao insulto e a um quase inacreditável arsenal de palavrões com o qual, por
momentos, se libertam de complexos de inferioridade e se colocam, julgam eles,
ao nível dos insultados. É a sua forma de subir na vida e de iludir um
plano inclinado que, ao contrário, os arrasta cada vez mais para baixo.

Em dez e-mails
dirigidos à redação ou comentários enviados para publicação (!) no Record
Online
, cerca de oito contêm ofensas destinadas a alguém ou chegam repletos
de impropérios, acontecendo, e não poucas vezes, que os autores dessas
aberrações vêm depois reclamar por ninguém lhes ter respondido ou por não se
haver publicado o rol de insinuações absurdas ou o
torpe palavreado em que se tornaram mestres. É preciso lata.

As redes
sociais proporcionaram um novo alento a esta cobardia e o anonimato – de que já
beneficiavam os blogues – incentivou mais alguns milhares de anormais e de
complexados sem cura a repetirem na net o que fazem no terreno: insultar
os mais qualificados, tentar emporcalhar todos os que a sua sanha boçal não
consegue atingir, agredir os indefesos, apedrejar os árbitros e os polícias,
imitar o Diabo e afrontar Deus. Não são humanos.

Esses
marginais exibem já sinais de real especialização. Dou dois exemplos. O
primeiro é a facilidade com que mudam de nickname e de endereço
electrónico, dificultando não só uma eventual identificação para procedimento
criminal – sim, não são totalmente parvos – como também a impossibilidade de
nos livrarmos deles: bloqueados hoje, renascem amanhã como os cogumelos. O
outro sinal é duro e consiste na ofensa, tão cruel quanto a imaginação doentia os possa
levar, à família do visado, ou seja, a intenção de o balear onde mais lhe doa.

O desprezo
profundo é o escudo que resta aos inocentes.

Crónica publicada na edição impressa da Sábado de 13 dezembro 2012

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