Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: jornalistas criativos

Não creio que exista uma grande
diferença entre as cabecinhas doentes de homens e mulheres que são capazes de
tudo para tornarem a meter no copo o leite derramado, fazerem correr a água dos
rios da foz para a nascente, ou seja, serem de novo amados, ou simplesmente
aceites, por quem deles desistiu e os desprezou. Comparo-os àqueles jogadores
que, desesperados, discutem com os árbitros quando o juiz de campo já lhes deu
ordem de expulsão e é certo que não volta, nem poderia voltar, com a sua decisão
atrás.

Once upon a time… um jornalista que
recebeu a missão de ir com uma estrela nascente da canção a um festival da
Eurovisão, que a jovem acompanharia não como intérprete mas como comentadora de
uma revista. Uns dias antes da partida, um outro jornalista deu conta ao
primeiro de que também seguiria no mesmo avião, já que lhe tinham marcado a
reportagem de uma competição desportiva aprazada para a cidade onde decorreria o
festival. Mal aterraram, o penetra simulou atender uma chamada, após
o que informou os companheiros forçados que a prova fora anulada, que não
arranjava voo para regressar de imediato e que, sendo assim, o duo passaria a
trio. Claro que os passos seguintes demonstraram que, do hotel ao bilhete de
entrada no festival, tudo tinha sido tratado com antecedência pelo nosso homem,
que estava com um olho na menina e outro no colega e provável concorrente. No
fim, tanta marcação em cima da
desejada provocou constrangimentos, e deram, não um mas os dois candidatos com
os burrinhos na água – até porque antes, em Lisboa, já um terceiro jornalista se
lhes adiantara…

Se uma pessoa se dá a este
trabalho e criatividade antes de acontecer a atracção fatal, imagina-se o que fará
quando lhe foge por entre os dedos o que tomava por certo. Foi o caso de uma
repórter de um jornal por onde passei, que manteve uma relação breve com o
director de uma fábrica. Terminado o romance mais cedo do que ela contava,
iniciou a rapariga uma caça ao ex-amante, que levou a que a vítima nem do telefone se aproximasse.
Então, um dia, a desesperada ligou para o escritório da empresa e disse a quem a
atendeu: “Daqui fala uma amiga de fulana (ela própria, claro), era para avisar
beltrano (o tal dirigente) que fulana acaba de se suicidar e lhe deixou uma
mensagem…”

A paixão pode justificar muita
coisa, mas uma cabeça doente é perigosa em qualquer circunstância. Noutra
ocasião, a mesma jornalista teve a desfaçatez de anunciar aos colegas, desolados, que lhe
havia sido diagnosticado um cancro – o que se veio a saber ser falso – só para
conseguir meter, na hora, um vale, de valor elevado, à caixa. É verdade, já vivi o
suficiente para que nada me espante. 

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 15 março 2012