Crónicas da Sábado: ir à luta é o caminho

Fiquei desempregado três vezes em quase meio século de actividade profissional e sei do que se trata: de uma situação desesperante do ponto de vista financeiro e humilhante pelo estigma social que estupidamente se abate sobre quem ficou sem trabalho. Teria, por isso, todos os motivos para participar no coro de indignação que se seguiu às pouco felizes declarações de Passos Coelho. Mas a verdade é que não ouvi nessas palavras um insulto aos que perderam o emprego – para cujo destino o primeiro-ministro não foi, por certo, quem mais contribuiu nos últimos 10 anos. Encarei, antes, a sua posição como um toque a reunir, um gesto de estímulo aos atingidos pelo maior flagelo deste século, para que recuperem o ânimo e enfrentem, sem tréguas, o duro combate que têm pela frente – e que ninguém travará por eles.

Já aqui o escrevi noutras ocasiões: as nossas universidades, como a herança cultural que recebemos de pais e avós, ajudam a criar o espírito dependente dos funcionários, do empregozinho como maior objectivo de vida, em vez de formar empreendedores, pessoas capazes de sobreviver sem a muleta de uma empresa que corra os riscos e assuma as consequências. E que jeito nos dava agora ter gente com outro inconformismo face à desgraça, outra imaginação na procura de alternativas, outra alegria para substituir o negro pessimismo que nunca faz as coisas acontecerem.

Dir-me-ão: pois, isso é bonito de dizer, mas quando se entrega a casa ao banco, quando se vende o carro, quando se tiram os filhos do colégio, quando se pede às mães ou às sogras para ir com elas ao supermercado, que optimismo se pode ter? Responderei: é tudo verdade, só que já aconteceu, não mudará de todo, não se ultrapassará sem que o sentenciado se revolte contra a pena injusta e se decida a partir para a luta. Não é fácil? Não, é mesmo muito difícil, muito angustiante, e obriga a mexer na ferida, a sofrer ainda mais. Mas não o fazer e ficar à espera de coisa nenhuma, continuar com lamentações, recusar acreditar que se é capaz de inverter a situação, ou achar que só um milagre nos salvará, será sempre pior. Isso, sim, é entrar num beco sem saída.

O único aspecto em que o primeiro-ministro falhou, além de não ter tido em conta que ninguém está preparado para perder a fonte do seu equilíbrio e da sua dignidade, foi o de confundir Portugal com os Estados Unidos ou com a Inglaterra, países de pequenos empresários, onde hoje se tem uma pet shop e amanhã se trabalha num escritório ou se limpam jardins. É essa falta de oportunidades, numa economia em pantanas, que lança no deserto quem cai no desemprego. E aí Passos Coelho começa a ter responsabilidades.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado XL de 24 maio 2012

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