Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: Futre, de génio a cromo

Aprendi com os mestres a não fazer comparações entre futebolistas de épocas diferentes. A evolução do association, com novos pisos de jogo, novas bolas, novos métodos de treino, novas regras de alimentação, novas exposições mediáticas, novas tácticas e novas exigências no sacrifício da prestação individual ao rendimento colectivo, entre outros factores que o tempo modificou, impedem que se possam estabelecer comparações objectivas, por exemplo, entre goleadores como Cristiano Ronaldo, o king Eusébio ou o violino Fernando Peyroteo, este último um marcador inigualável quanto a números, com 529 golos em 327 jogos nas 12 épocas em que vestiu a camisola do Sporting (1937/49), uma média de 1,6 golos por desafio, um fenómeno.

Claro que a nível pessoal todos têm as suas preferências. Para mim, que já não vi actuar Peyroteo, os melhores jogadores do Mundo deram pelos nomes de Di Stéfano e Pelé, os maiores rematadores foram Eusébio, Puskas e agora Cristiano, e o mais eficaz goleador de área foi Matateu, que num palmo de terreno encontrava uma nesga para visar com êxito a baliza adversária – graças à sua incrível potência de remate. E como executantes mais extraordinários, capazes de driblar quem fosse sem perder o controlo da bola e assinar assim jogadas espantosas, escolho Garrincha, o Mané das pernas tortas, e Paulo Futre, o craque do Porsche amarelo.

É verdade, o montijense foi um futebolista genial a que só a irregularidade exibicional, muito motivada por problemas físicos, e a intranquilidade emocional, decorrente da procura constante de melhores contratos, não permitiram dispor de um lugar na fila da frente da restrita galeria dos imortais do pontapé na bola. De facto, só em dois períodos da sua carreira, nas três temporadas no FC Porto (1984/87), com dois títulos de campeão, duas supertaças e o triunfo na Taça dos Campeões Europeus, e nas quase seis no Atlético de Madrid (1987/93), quando conquistou duas Taças do Rei e os corações dos adeptos colchoneros – é dessa altura, de 1988, a foto em que o vemos comigo e com Luís Norton de Matos – o Paulo foi um símbolo, uma referência.

Mas tendo começado no Sporting e passado também pelo Benfica, só é amado hoje em Portugal pelos que, como eu, não esquecem o perfume do seu futebol. E são esses que não apreciam vê-lo nesta nada elogiável faceta de cromo da bola e de clown de famosos, ele que é uma autêntica celebridade.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 26 maio 2011