Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: eu, burro todos os dias

Parece que a Casa dos Segredos fez surgir um novo fenómeno nacional: a surpresa pela ignorância dos jovens portugueses. O tema levar-nos-ia longe e alcançaria até um patamar bem mais preocupante quando concluíssemos que grande parte da nossa nata intelectual revela, por vezes, demasiadas vezes, sinais de uma incultura geral relativamente mais grave do que a boçalidade natural reinante no programa popular da TVI.

Tenho um sentido apurado de autocrítica e ainda há duas semanas utilizei nesta crónica, na mesma frase, tempos de verbos que misturavam, erradamente, o presente com o passado. No caso, não se tratou de desconhecimento mas de facilitismo, de falta de concentração na altura da escrita e de ausência de revisão após o derradeiro ponto final. Uma pecha, comum nas redacções, que levei uma vida a combater e que me esqueço, às tantas, de aplicar a mim próprio. Burrice, portanto, de qualquer forma.

A ignorância é outra coisa, disfarça-se em permanência – porque se dá mal com o ego – sem que se tenha, ao menos na privacidade do pensamento, a humildade de reconhecer tudo o que desconhecemos e a consequente disponibilidade para aprender. Com os veteranos, com os que sabem mais? Sim, mas também com os novos ou velhos que, sabendo menos, são capazes de, a todo o momento, nos abrir uma janela para o que não entendíamos ou de nos alertar para o que jamais nos passara pela cabeça.

O analfabetismo dos concorrentes da Casa dos Segredos é o que se deve esperar tendo em conta o casting do programa, que procurou quem desse espectáculo. Quanto mais desfaçatez, mais silicone, mais músculo, mais futilidade e mais estupidez, melhor para as audiências. O resultado só podia ser aquele. É impossível semear abóboras e colher ananases.

Durante anos – já décadas, valha-me Deus –, o meu espanto foi dirigido, sim, à fraca prestação de certos licenciados em jornalismo, alguns com pós-graduações e mestrados, cujos textos tive de ler ou cujos raciocínios básicos fui forçado a seguir, confesso que com pavor. Culpa dos cursos que frequentaram? Talvez. Mas com as inevitáveis excepções do nacional-compadrio, são efectivamente bons muitos dos professores que ensinam nas escolas de comunicação social, pelo que me custa a crer que seja esse o verdadeiro problema.

Diz-me a experiência que a questão estará, antes, na postura sobranceira, universitária, que adoptam esses jovens quando começam a trabalhar. A única maneira de aprender é começar por admitir que se sabe pouco. Trocar a postura do doutor pela do burro seria o caminho? Sim, sim… e convencê-los disso?

Crónica publicada na edição impressa da Sábado de 17 novembro 2011