Crónicas da Sábado: em dívida com Branca Flor

Dez anos depois do seu suicídio, já poucos se lembrarão de Cândida Branca Flor, uma cantora popular que atravessava, em 2001, uma fase de penumbra e solidão para que não estava preparada. Não era propriamente seu fã, embora reconheça que, como jornalista, só me interessa saber se um artista é ou não apreciado pelo público a que se dirige. O gosto pessoal e a apreciação da qualidade, ou do que julgo que ela possa ser, ficam noutro plano.

Como entrei naquela fase da existência em que os balanços do que fiz, não fiz ou deixei de fazer e devia ter feito surgem a toda a hora, creio que me encontro em dívida com Branca Flor. Passo a explicar. Cheguei à direcção do Tal & Qual no primeiro trimestre de 2001, com o título a ameaçar descer dos 30 mil exemplares de vendas por edição. A fórmula que levara ao seu êxito, nas duas décadas anteriores, estava gasta e os novos canais de televisão, com programas ou reportagens de características ligeiras, passaram a invadir o espaço editorial de um semanário cuja fama se criara pela sua até então inigualável especialidade: a de contador de histórias.

Acredito que a sorte na vida sorri primeiro a quem melhor trabalha e mais se esforça, e sobre a mesa do empenho da pequena equipa de jornalistas que tinha por objectivo repor rapidamente o nível de vendas acima dos 40 mil e salvar o jornal caiu, no Verão daquele ano, um autêntico presente. Não a morte de Cândida, que constituiu para todos um choque pelo modo como se deu, mas o acesso privilegiado a fonte próxima da cantora e que permitiu à repórter Antonieta Preto contar o drama que mais ninguém pôde revelar.

Foi o regresso a números próximos dos 60 mil exemplares, a seguir quase igualados pelas primeiras páginas de uma reportagem em que três jornalistas entraram corajosamente no mundo da prostituição de luxo, e de outra que levou à descoberta, pelo repórter Frederico Duarte Carvalho, do casamento secreto de Bárbara Guimarães com Pedro Miguel Ramos, em 1997, na República Dominicana. Essas e outras edições deram ao Tal & Qual um balão de oxigénio que só se gastaria em definitivo seis anos depois, em 2007, já o semanário tinha novos donos, acumulara equipas de redacção, se aventurara por linhas editoriais de risco elevado – era, em boa verdade, com vendas abaixo dos 10 mil, coisa diferente.

Uma das lições que a passagem de 10 meses pelo título fundado por Joaquim Letria me proporcionou foi a do valor comercial da morte, e a da queda do sucesso, e da glória, na prisão ou na miséria. As histórias de um rico que voltou a ser pobre ou de uma estrela que se apagou são filões inesgotáveis para um público cruel e insaciável. Beneficiei disso. Obrigado, Branca Flor.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 10 novembro 2011

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