Crónicas da Sábado: e o País, pá?

Não sinto simpatia especial pelos Homens da Luta e lamento a triste figura que irão fazer no próximo Festival da Eurovisão, no qual, é bom que se esclareça, não cantam (?) em representação de Portugal, mas apenas da RTP – o que já não é pouco. A minha falta de paciência para as diabruras dos rapazes não reside, ao contrário do que o leitor estará tentado a pensar, nem no conflito geracional nem em qualquer tipo de preconceito que, se existisse, poderia ir de um posicionamento político radical a uma aparente falta de banho.

A ausência de simpatia especial não significa nenhuma simpatia. Desde logo, agradam-me as pessoas que se manifestam contra tudo o que é tendência dominante não suportada pela razão ou que recusam o sono da inacção e do conformismo tão do agrado da sociedade portuguesa, que por isso se encontra na estúpida situação que todos conhecemos. E depois, sabe bem ouvir questionar fora dos locais próprios, no caso em plena rua, aquilo que os ocupantes ou utilizadores dos locais próprios não estão interessados em pôr em dúvida.

O ridículo de um povo inculto e gastador que substitui os valores pelo consumo à outrance, o desprezo ou a indiferença que hoje se dedica ao mérito do trabalho e ao esforço pela procura do conhecimento, a decadência de uma nata autista e incapaz de descodificar os ventos de uma mudança que acabará por lhe cair em cima, a mediocridade – não generalizada, há que sublinhar – de uma classe política há muito abandonada pelos melhores, a incapacidade do Estado de Direito para punir gatunos e trapaceiros, a contemporização do eleitorado com mentirosos e corruptos, eis a seara dos Homens da Luta. E também o campus do sucesso – aqui e ali mesmo com contornos de novo-riquismo – tanto de algumas dezenas de humoristas talentosos e de puros especialistas em má-língua, como de insuportáveis oportunistas da graçola, cujo negócio floresce à custa da anedota grosseira e da simples exploração tragicómica da miséria a que chegámos.

Dito isto, por que não é, então, absoluta a minha simpatia pelo dueto contestatário? Apenas por acreditar que o beco em que nos meteram tem saída, e pela postura, obviamente político-partidária, dos Homens da Luta, que fazem parte da crescente mole dos que tudo criticam mas nada constroem. Dos que querem continuar a gastar mas exigem renegociar a dívida, ou seja, não se pagar o que criminosamente se esbanjou. Dos que querem baixar os impostos e aumentar os subsídios à geada e também ao sol, aos desprotegidos mas igualmente aos parasitas. Em luta estamos todos, só que uns – enquanto outros berram – metem ombros à tarefa de voltar a pôr o País de pé.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 20 abril 2011. Tema de Sociedade da semana: os Homens da Luta

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