Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: e o Gomes Mota ficou

Sou o verdadeiro turista acidental,
ops!… cuidado com as palavras, turista ocasional, sim, ocasional é melhor.
Ou seja, visito uma ou duas cidades
estrangeiras por ano, quase sempre as mesmas, e passo dez dias de férias
algures, agora que o Algarve tem a água mais fria que nunca, pese o aquecimento
global. Deslocações ao serviço de Record
não há, primeiro porque tenho quem as faça por mim, e depois porque os tempos
não estão para diretores que, a propósito de campeonatos mundiais ou Jogos
Olímpicos, se ausentam da redação por três ou quatro semanas e derretem
fortunas em alojamentos, refeições e carros alugados, apenas para impingir, lá
de longe, umas considerações mais ou menos filosóficas, conhecidas por xaropadas, que não interessam a alguém e
não vendem nem mais um exemplar.

Respondo com isto a um leitor que deduziu, cordialmente, pela última crónica,
que eu era dado a passeatas e extravagâncias, quando sou, na realidade, um
filho das fragas beirãs, um saloio que jamais se afastou dos princípios
espartanos do seu código genético. E tenho de recuar bastante no calendário e
de revisitar a época em que fui enviado-especial para, sendo fiel ao tema da
semana, encontrar uma aterragem, não de emergência porque essa experiência –
como a da bagagem extraviada – nunca me tocou, mas uma aterragem forçada. Creio
que a história não é nova, mas cá vai outra vez.

Foi em 1976, no regresso da visita oficial de Mário Soares, então
primeiro-ministro, ao Brasil, em avião da TAP. Na conclusão de um périplo que
começou pelo Rio e continuou por Brasília e São Paulo, voámos da Baía até ao
Sal, para uma pequena reunião de Soares com o chefe do governo de Cabo Verde,
comandante Pedro Pires, ambos, curiosamente, futuros presidentes dos respetivos
países. Cinco ou seis penosas horas mais tarde, partimos enfim para Lisboa – e
eu estava mortinho por chegar a casa e ver as minhas filhas.

Já perto do Algarve veio o balde de água fria: o nevoeiro na região da capital
obrigava a aeronave a rumar a Faro. Recordo ainda hoje essa sensação terrível
de mais uma aterragem, a sexta em oito dias, e de mais um check in, o quinto. A única vantagem foi a épica entrada no luxuoso
e recém-inaugurado Hotel Dona Filipa, em Vale
de Lobo, onde só voltei 20 e tal anos depois para encontrar lá outra coisa. Mas
a imagem dos excursionistas famosos e indignados, com Francisco Sousa
Tavares a gritar para Mário Soares, “demita o Gomes Mota, demita o Gomes
Mota!”, que era o presidente da TAP e o suposto responsável pela bagunça
daquela chegada, acompanhar-me-á até ao fim dos dias. Eu, um pobre jornalista,
no hall do hotel do poder! E o Gomes
Mota? Esse, ficou.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 31 de outubro 2012. Tema de Sociedade da semana: aterragens de emergência