Crónicas da Sábado: e eles pimba

Não fosse o triste desaparecimento de Artur Agostinho e as não menos tristes cenas que envolveram as eleições do Sporting e a última semana noticiosa teria variado entre a crise interna e os juros da dívida, e o coro de ladainhas intermináveis de opiniões e contra-opiniões sobre os dois becos sem saída paralelos em que os políticos-pimbas cá da terra nos meteram.

Olhamos para os artistas que ocupam o poder e o que vemos? Seis anos de medidas erráticas, gente desqualificada a ocupar tachos, pouca coragem para atacar privilégios, reforma do Estado por fazer, insensibilidade social aterradora, proliferação de empresas públicas e municipais, classe média empobrecida e mentes brilhantes em fuga, uma verdade hoje e o seu contrário amanhã, muita propaganda e uma consequência: vivemos sobre um vulcão que ameaça expelir, a qualquer altura, uma crise social sem controlo.

Se nos voltarmos para os fregueses que se autoproclamam como alternativa, encontraremos um quadro igualmente desencorajador. Seis anos de balcanização e de falta de liderança, gente desqualificada à espera de tachos, inexistência de estratégia de ataque aos problemas, anúncio descoordenado de medidas avulsas, sensibilidade social aparente, baronato incontrolável, demagogia à solta e uma consequência: a perda da nossa vontade de escolher, entalados que ficamos entre o mal e a caramunha.

Bem pode a generalidade dos economistas reclamar a necessidade de um acordo alargado dos partidos do arco da governação – mesmo no actual cenário de prováveis eleições antecipadas – para se enfrentar o problema da dívida com uma perspectiva nacional que facilite, ou permita até, o financiamento do Estado e a recuperação da economia. Bem pode o Presidente da República continuar a gastar o seu latim a salientar que os entendimentos partidários ajudariam a salvaguardar os interesses do País, que a pimbalhada política de que desgraçadamente dependemos teimará na preparação do ataque ao poder a todo o custo ou na sua defesa a qualquer preço.

A táctica eleitoralista de Sócrates ao precipitar a crise governativa e a avidez de Passos Coelho ao aceitá-la – no convencimento, que pode ser suicida, de que chegou a sua hora – juntam-se a irresponsabilidades como a da interrupção da avaliação dos professores e à brutalidade da nossa penúria financeira cujos ecos correm mundo. Mas neste empate técnico de ineficácia e de desprezo pelo futuro dos portugueses há, no entanto, a dois meses da ida às urnas, uma diferença angustiante: de um lado, ideias sólidas ainda que erradas, do outro, frases soltas porventura certas. Não vai correr bem.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 31 março 2011. Tema de Sociedade da semana: uma reportagem com Ricardo Landum, autor de canções pimba

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