Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: do Tarzan ao Marquês

O primeiro herói canino da família
chamava-se Tarzan, Johnny Weissmuller
estava na berra. Era de uma raça
de vira-latas que – à semelhança de tantos homens bravos,
desgraçadamente sem continuadores – hoje já não se fabrica. Nos idos de 50, não
havia pão nem para malucos e um quatro-patas alfacinha tinha mesmo de se fazer
à vida, uma vida espartana, com restos de comida no prato e cama de
serapilheira ao canto da marquise. E a alvorada dava-se cedo, com o chichi da
manhã a constituir ponto de partida para uma descida, acelerada e ansiosa, da
Estrela até à doca de Alcântara, pelos atalhos traçados nos terrenos baldios
onde haveria de nascer a Avenida Infante Santo.

O Tarzan dispunha, à beira-Tejo, de uma
segunda família, composta por estivadores e embarcadiços, que atiravam calhaus
para ele ir buscar à água e lhe davam a seguir umas côdeas para pagar o
desempenho. A meio da tarde, o cão-mergulhador regressava, orgulhoso e
esfalfado, após a penosa subida do rio à Calçada das Necessidades, agravada
pela escalada ao terceiro andar. Chegava seco mas sujo de nafta e ouvia das
boas da minha avó antes de meter a primeira pata no corredor. Jogava depois às
escondidas connosco e era muito esperto, escondendo a cabeça debaixo do tapete
e deixando o corpo de fora, sem nunca ter entendido como era tão facilmente
descoberto. E como tudo tem um fim e a existência que levava era de risco,
tanto em terra como no mar, houve um
dia em que o Tarzan não voltou.
Aliás, não voltou mais e um pouco da nossa alegria desapareceu com ele.

Eu era
demasiado pequeno para entender a amplitude desse drama e, já adulto e a morar
numa quinta, na Ajuda, aceitei uma oferta e fui buscar, à Rua Maria Pia, um
cachorrinho a que chamei Marquês.
Mais tarde, viriam outros dois, o Duque
e a Duquesa, tudo da mais elevada
linhagem rafeira.

Formámos um
pequeno grupo solidário cujo fim surgiu num princípio de noite. O Marquês foi atropelado, na Rua do
Cruzeiro, fez um esforço hercúleo para subir vinte degraus e pôs-se a ganir no hall, à procura do auxílio que o seu
raciocínio linear indicava que só ali poderia encontrar. Não pôde porque a
pancada foi violenta, foi para matar. Morreu-me nos braços, a esvair-se em
sangue, e quatro décadas decorridas, quando já tanta imagem feliz me fugiu da
memória, de tanto biltre já esqueci até o nome, cá permanece aquele último
meigo olhar e me dói ainda a impotência que senti perante a terrível agonia de
um amigo que confiou em mim e ao qual não fui capaz de acudir.

À segunda,
aprendi, tenho o defeito de não aprender à primeira. Continuo a gostar de
animais mas, para sofrer, os de duas patas chegam-me.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 10 maio 2012. Tema de Sociedade da semana: cães de luxo