Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: destrambelhados com a Seleção

A
Selecção de futebol passou de novo a fase de grupos de uma grande competição, o
que aconteceu pela

quinta vez consecutiva. Desde 2004, quando Luís Felipe Scolari nos fez
redescobrir a Bandeira e o Hino, e nos tornou vice-campeões da Europa, que a
turma das quinas vai conseguindo cumprir o  velho sonho de Ricardo
Ornellas (1889-1967) – nome mítico do jornalismo dito desportivo – que a
designou por equipa de todos nós. Mas a empatia popular com a Selecção
já viveu melhores dias. Ao estilo de Scolari sucedeu o de Carlos Queiroz, os
jogadores foram preservados, os exageros nacionalistas desapareceram,
mas a abertura aos adeptos reduziu-se, a expectativa esmoreceu, as bandeiras
nas janelas são hoje um fenómeno do passado.

Com Paulo
Bento como seleccionador procurou-se uma situação de equilíbrio que devolvesse
o entusiasmo às pessoas sem fazer dos resultados dos jogos uma obsessão, quase
uma questão de vida ou de morte. Tarde de mais. A relação  dos portugueses
com o seu onze nacional adoptou tiques de uma bipolaridade doentia, uma vez que
se passa da depressão à euforia e desta de novo a um estado de letargia
profunda. O rendimento dos jogadores e a sua atitude perante os adversários
contam pouco, tudo se resumindo à mais básica das emoções. Se a bola bate no poste
e vai para fora, e com isso a equipa não ganha, apesar de haver trabalhado até
ao limite das forças, logo desaba um vendaval de críticas que não poupa
ninguém. Mas se do ressalto do mesmo remate, e na sequência de uma exibição
decepcionante, resultar o golo da vitória, os elogios surgem igualmente em
catadupa, num exercício de esquizofrenia em que só acreditamos porque nos
conhecemos.

O que se
viu com Cristiano Ronaldo, durante e após o confronto com a Dinamarca, é
revelador do absoluto desequilíbrio com que enfrentamos os terríveis dias que
nos devoram. Como o CR7 cumpriu o quarto jogo sem marcar e perdeu oportunidades
que não costuma falhar, a crítica das bananas caiu-lhe praticamente toda em
cima, desde os arrivistas das redes sociais, sempre rápidos na ordinarice, aos
patéticos especialistas que fingem esquecer-se que, no futebol, para uns terem
êxito, alguém terá de soçobrar.

Após o
triunfo de domingo, com os dois golos de Ronaldo à Holanda, lá regressou o
destrambelho, o exagero dos elogios, os solos de harpa em honra do orgulho
da nação
. Tudo fingido. Pai solteiro, oriundo de família modesta,
milionário, impolido e por vezes arrogante, o eterno enfant terrible da
Selecção está condenado a viver entre os salamaleques e a intolerância.
Precisamos muito dele, e dos seus erros, para nos vingarmos das nossas
frustrações.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 21 junho 2012