Crónicas da Sábado: desapareceu uma diva

Deixamos de ouvir falar das pessoas
e há um dia em que sabemos que nos deixaram: é a vida na sua crueza.
Margarida Marante fez parte de um
pequeno grupo de jornalistas que se formou na arte de perguntar, precursor dos
pobres pés de microfone dos nossos
dias. A entrevista, a sério, é uma especialidade em desuso, diria até uma coisa
de velhos. Atravessamos hoje a era dos debates, dos monólogos, das cavaqueiras
não raras vezes resultantes de compromissos firmados pelas partes. A Marante
era quase tão feroz a inquirir como Manuela Moura Guedes, tinha o olhar doce e
enganador de Judite de Sousa, estava nos antípodas da acutilância serena de Ana
Lourenço. Parei repetidamente para acompanhar o seu trabalho, o País susteve a
respiração para a ver despir vários figurões na praça pública. Ninguém ficava na mesma depois de se sujeitar à dureza de um
frente-a-frente com Margarida Marante.

Ficámos
demasiado cedo sem esse registo. A jornalista não tinha, infelizmente, a
resistência de ferro de um Mário Crespo, nem dispunha de estabilidade emocional
que lhe permitisse aceitar que envelhecer significava melhorar. E saber que o
seu peso na sociedade era acentuado, que o espelho é inimigo cobarde que só
destrói quem não é capaz de o enfrentar, e que o amor de três filhos admiráveis
– que teve com o homem generoso que a apoiou até ao fim – era combustível
suficiente para manter e aperfeiçoar a imagem da diva que inquestionavelmente
foi. Fica-me dela a saudade.

Margarida nunca
escondeu a sua proximidade com o PSD e presumo, por isso, que tenha vivido com
alguma amargura os seus últimos meses de observadora da realidade nacional. Já
não digo por causa da acção do Governo, que parece empenhado em fazer o pleno
da irritação dos portugueses, seja qual for o partido em que votaram. Mas pela
tristeza que se sente após ver o que se vê, ouvir o que se ouve e analisar a
reacção errática dos protagonistas.

Pedro
Passos Coelho era, por certo, um candidato a primeiro-ministro bem intencionado
quando prometeu não fazer tudo aquilo a que a realidade o obrigou. Agora, surge
disposto a suportar o sofrimento da subida ao Gólgota para acabar ingloriamente
na cruz. Que sinta o peso da responsabilidade e queira mostrar o seu sentido de
Estado, entende-se. O que custa é que não se questione pelo facto de muitos dos
que estiveram um dia a seu lado o terem abandonado – de Medina Carreira a
Marques Mendes, de Eduardo Catroga a Manuela Ferreira Leite, de Luís Filipe
Meneses a Pedro Marques Lopes. Se Margarida Marante entrevistasse hoje Passos
Coelho, a sua primeira pergunta seria: “Senhor primeiro-ministro, por que não
se demite?” Estou a vê-la.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 11 outubro 2012

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