Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Crónicas da Sábado: daltonismo colectivo

Pedro Coelho, um
dos maiores repórteres da televisão portuguesa, publicou na SIC um trabalho que
revela a
facilidade com que certos políticos
aproveitam o desempenho de funções públicas para arranjarem um lugar ao sol na vida profissional, a maior
parte das vezes ao serviço de empresas que de alguma forma beneficiaram de
anteriores decisões suas ou do governo que integraram. A reportagem tinha uma
única pecha: misturava casos entendíveis com atentados à ética e aos costumes,
autênticos filmes a preto e branco que só os daltónicos podem julgar ter uma
versão a cores. Mas esse daltonismo são os olhos da  sociedade que somos,
invejosa e simultaneamente tolerante, já que sentimos desdém pelo novo carro do
vizinho ou pela carteira de marca da prima e aceitamos depois evidências da
corrupção mais abjecta.

Recordo com nostalgia os primeiros
anos da nossa democracia, quando, a par dos inevitáveis oportunistas, chegavam à
área do poder figuras de referência da probidade e da ética, que o tempo se
encarregou de varrer até ficarmos com o que conhecemos hoje. Tive o prazer de
privar, no início da década de 80 e na redacção do diário Portugal Hoje, com o filho que levou o
ministro Walter Rosa à demissão da pasta da Indústria, em 1977. Era um bom
jornalista e uma criança grande ou, antes, um homem bem formado com um gap: havia sido condenado por ter
assaltado um banco, armado com uma banana. Mais tarde, a cabeça voltou a falhar
e repetiu a graça, então de forma
mais pesada, já que substituiu a originalidade da banana por uma vulgar pistola
de plástico. Nunca magoou quem quer que fosse e o dinheiro roubado foi devolvido
pela família, cujo sofrimento facilmente se
calcula.

Pensava eu, pelo nobre exemplo de
Walter Rosa, que ia ser sempre assim, mas a esperança numa democracia vigorosa
nos seus princípios morreu solteira. Compreendo-o à luz da realidade destes
desgraçados tempos e da lógica partidária que procura contornar as dificuldades
e garantir a sobrevivência da sua ávida fauna. Os básicos filiam-se para colar
cartazes e arranjar emprego, os ambiciosos usam a retórica para aceder à
carreira pública que lhes proporcionará depois uma posição bem remunerada na
vida privada. Ninguém chega com um percurso profissional de sucesso,  poucos se
encostam aos partidos pela oportunidade de servir – a época é a do salve-se quem
puder.

A grande questão reside em saber
como romper um pântano que se alarga a outros países de uma Europa exaurida,
carente de perspectivas de futuro e que não se sabe como repor os valores do
respeito, da justiça e da verdade. O daltonismo colectivo, antes a preto e
branco, é afinal negro, só negro.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 19 julho 2012. Tema de Sociedade da semana: daltónicos…