Crónicas da Sábado: da fama de assédio não se livram

Esta história do
assédio tem muito que se lhe diga e estará sempre dependente das pessoas e das
circunstâncias
, claro, mas também de quem conta o conto, já que,
normalmente, a tendência manda acrescentar um ponto.

Desde que ganhei consciência da
minha fragilidade, um pouco tarde, infelizmente, para mim e para os que tiveram
de me aturar, não só não guardo recordação de ter assediado alguém, como passei
a ter o máximo cuidado com esse tipo de comportamento, pois o tema é
escorregadio e não permite defesa: uma vez acusados, justa ou injustamente, da
fama já não nos livramos.

Nas redacções, o problema do assédio
sexual é complexo, pois sendo normal haver jornalistas a viver com jornalistas –
só no Record, que eu saiba,
existem neste momento uns seis ou sete casos – é igualmente comum encontrar um
vasto rol de relações fracassadas. A pergunta que se põe é quem assediou quem,
ou seja, quem deu o pontapé de saída para o namoro inicial, que não resultou
depois ou que deu em casamento.

Parece que o assédio só se verifica
quando as coisas dão para o torto, em especial quando as mulheres dizem não. Se a nega for dada a um colega de trabalho não
graduado ou com patente semelhante, a conversa terminou. A
questão pôe-se quando foi um superior hierárquico – só essa designação, aplicada
a jornalistas, já é patética – que fez o primeiro gesto. Ou há seriedade e é
não e pronto, tudo acaba aí, ou
então é lançada maldosamente, na direcção do rejeitado, a onda da suspeição da qual
jamais se libertará: fulano é um babas, é preciso cuidado com ele, assediou
beltrana, coitada.

Numa altura desgraçada da vida das
empresas e dos trabalhadores, as cautelas deverão ser redobradas, em particular
no caso dos gestores que se vêem forçados a desistir de colaboradores, um acto
profundamente solitário. Quem decide, tem de assumir sozinho a responsabilidade
pelas escolhas que faz. E não deve prescindir de pessoas pela simpatia, pelas
opções individuais – políticas, religiosas, o que for – ou pelo sexo, nem tão
pouco delegar a sempre difícil comunicação a quem terá de
sair.

Mas enfrenta-se um dilema quando é
necessário dispensar profissionalmente uma mulher. Por um lado, ela deve ser
tratada como qualquer outro colaborador e é dever de quem tomou a decisão
explicar-lhe os motivos, cara a cara, sem satisfação, nem ressentimento. Por
outro, a ausência de testemunhas – cuja presença seria incómoda e sinal de
cobardia – cria uma situação perigosa, já que a visada pode pôr-se aos gritos
dentro do gabinete. Como quase tudo na vida, o assédio sexual balança entre a
verdade e a mentira.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 22 novembro 2012. Tema de Sociedade da semana: o assédio sexual

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