Crónicas da Sábado: crispação é o que falta

O apelo ao bom senso interpartidário que o actual PR e três antigos presidentes fizeram a 25 de Abril caiu, como se calculava, em saco roto. Está demasiado em jogo nesta vertigem pelo poder, seja pela possibilidade da perda seja pela eventualidade da conquista, para que os actores em cena consigam parar de se insultar e pensem no interesse colectivo. Quando um dirigente da oposição sobe a rampa do Palácio de Belém a dizer aos jornalistas que espera que Cavaco Silva responsabilize o Governo pela situação do País, no dia em que se sabia que os discursos iriam tentar contrariar o ódio vigente e defender consensos, ficamos esclarecidos. Vai ser a matar até 5 de Junho.

Se bem que esta coisa que se critica agora, a da crispação, tenha muito que se lhe diga. Pensando bem, o que me parece é até o contrário: os portugueses crispam-se pouco, exercem com demasiada moderação o direito de se indignarem, comem e calam com uma  facilidade que, mais do que conformismo, soa a rendição. E não me refiro aos que descem regularmente às ruas, convocados por sindicatos e enquadrados pelos partidos do protesto. Esses são os revoltados naturais, fartos da pobreza e da ausência de oportunidades, sem trabalho muitos e com pouca vontade de se esforçarem demasiado outros, a quem cortam hoje os subsídios e as prestações sociais de que dependem.

O que de facto me espanta é a capacidade de resignação da classe média, a que paga do seu bolso todas as crises. A que compra a prestações habitação própria e automóvel, que tem a mania de pôr as crianças em colégios, que utiliza ao mínimo a rede de saúde pública, que se dá ao luxo de gozar férias fora de portas, que tem a veleidade de comprar uma máquina de lavar quando a velha se avaria, que ousa fazer alguma poupança, que vê a sua futura reforma diminuir na proporção em que aumenta a carga fiscal que é obrigada a suportar. Essa gente, que tem tudo a perder com o estado a que chegámos, que vai ver-se forçada a entregar a casa ao banco, tirar os filhos da escola privada, procurar um emprego qualquer-coisa, contar com uma pensão que não dará um dia para pagar o lar, anda por aí encolhida, sem élan e sem coragem.

Já passei a fase do sangue na guelra e nem o aumento de 4% no meu IRS mensal me crispa. Mas devia. Devia sentir-me crispado com os que não evitaram a deterioração da nossa vida. Devia sentir-me crispado com os alternativos que não nos apresentam uma ideia que faça sentido. Devia sentir-me crispado com os que só propõem soluções utópicas e não se chegam à frente para o que dói. Ou talvez esteja mesmo crispado e não queira admiti-lo. Sim, é isso, as novas gerações que se revoltem – e limpem a porcaria que nós fizemos.

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