Crónicas da Sábado: contra o Álvaro, marchar

A caça ao Álvaro é o desporto da moda em Portugal. Atormentados com a
crise, impotentes perante a mão
dura de um governo que faz o que mandam os credores, os
portugueses, com os analistas políticos à cabeça, elegeram Santos Pereira como
o bombo da festa. E tentam ir mais longe, procurando mesmo transformá-lo, de
forma injusta e cruel, no bobo da corte. Aliás, foi o próprio quem se pôs a
jeito, com o patusco pedido de tratamento por Álvaro, um gesto de saudável simplicidade mas que o colocou ao
nível da malta.

O facto de ser um técnico que alcançou êxito fora de portas ajuda a esta
espécie de segregação, que sempre atinge os que não permaneceram por cá a comer
o pão que o diabo amassou e pensam que podem, depois, regressar para dar lições
aos badamecos que ficaram para os
sacrifícios e que resistiram a todas as violências. Gostamos muito de
emigrantes, em especial daqueles que mandam para cá as poupanças, mas olhamos
de soslaio qualquer pretensão, superficial que seja, de se julgarem superiores
a nós, uma questão cultural muito ligada ao êxodo da década de 60, quando se
fugia daqui da miséria para se ir viver nos
bidonvilles
dos arredores de Paris. Não tem nada a ver com o emigrante de luxo que o Álvaro foi e
voltará a ser? Ai tem, tem.

Os intelectuais da nação reúnem, pelo seu lado, outros motivos para não
apreciarem Santos Pereira. Desde logo, o estilo fulanista, informal e de
suposto à vontade que usa, no esforço, inglório, de reunir simpatias e de ser
aceite. Depois, a badalada obra, Portugal
na Hora da Verdade
, que constituiu a sua rampa de lançamento para o
Executivo, um calhamaço volumoso e repetitivo onde se detectava mais a aversão
ao governo de Sócrates e se sublinhavam teorias do que se apontava, para o
futuro, o caminho prático que se prometia na capa do livro – como vencer a crise nacional. Começamos
a perceber porquê.

A postura pública de Álvaro também não o tem ajudado, valha a verdade. A
pretensa lição de moral política dada ao PCP, no Parlamento, foi uma incursão
inútil e perigosa pela área do vale-tudo partidário, que não é a sua. O desvio de poderes, para Vítor Gaspar, de
aplicação dos fundos do QREN, por muito que pareça adequado, deixou-o malferido
por total inabilidade na comunicação. E a entrevista ao Expresso, sendo reveladora do pouco que lhe deixaram para dar ao
País, mostra igualmente um homem que luta para não perder o pé, enfim
preocupado com a imagem que antes negligenciou. “Se eu fosse um ministro fraco,
incomodaria tanto?”, pergunta agora. Ou seja, fala do que é, na esperança de
que ainda ninguém tenha reparado. Passos Coelho não hesitará, chegado o
momento. Obrigado, bom e leal Álvaro – e até sempre.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 22 março 2012

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