Crónicas da Sábado: com M de Mulher

Helena Sacadura Cabral é uma das figuras mediáticas
mais interessantes do País. Nas entrevistas que dá e nos livros
que escreve revela-se uma pessoa de mente aberta e
linguagem clara e motivadora, com um sentido positivo das situações e uma
capacidade de análise dos comportamentos e das circunstâncias de facto invulgar
– em televisão, então, o seu poder de comunicação é simplesmente arrebatador.
Por isso, muito mais do que a mãe de Miguel e de Paulo, Helena é uma mulher com
M grande, uma personalidade cativante.

Com seis obras publicadas
desde a morte de Miguel, há um ano, uma atividade frenética que a ajuda a
manter a serenidade e a seguir em frente, a escritora tem procurado, por certo,
reencontrar o equilíbrio que o desaparecimento de um filho, para mais em
circunstâncias penosas, sempre nos fará perder, seja qual for a nossa
resistência psicológica, formação religiosa ou tempo de preparação de que
dispusermos – e que jamais será suficiente – para enfrentar aquela que é,
porventura, a mais dura provação a que se pode sujeitar um ser humano.

Dentro de nós, é sabido,
diversos eus ameaçam entrar em
conflito, destruída ou apenas abalada que se encontre a nossa harmonia
interior. Como escreveu Clarice Lispector: “Sou vários caminhos, inclusive o
fatal beco sem saída”. E quando um filho, que devia acompanhar-nos no dia da
jornada derradeira, parte antes de nós – por vontade divina ou ação dessa força
injusta e irracional que altera o que designamos por lei da vida –, talvez o
mais difícil, o mais duro logo após o impacto brutal do primeiro choque seja a
culpabilização pelo que se deixou de dizer e fazer, pelo que se disse e fez e
se devia não ter dito nem feito, pelo afastamento inevitável mas absurdo, pelo
tempo que se perdeu e não volta.

A seguir chegarão as dúvidas,
um longo, incontornável e doloroso rol de perguntas que ficarão sem resposta e
com as quais teremos de viver para sempre – se formos capazes, porque o sempre
é tempo de mais. Terei dado ao meu filho todo o apoio na doença de que ele
precisava? Teremos constituído a família que ele ambicionava? Terei sido o pai
perfeito que ele merecia? Disse-lhe que o amava e que me
fazia falta tantas vezes quantas esse sentimento me tomou? Deveria ter
aguardado o seu fim, dia e noite, de mão dada com ele? Quais e dirigidos a quem
terão sido os seus últimos pensamentos? Terá morrido em paz consigo próprio e
com os outros ou assustado e revoltado?

Não são dúvidas de Helena
Sacadura Cabral, são de um pai, de uma mãe, serão de muitos, são minhas. Só não
as farei um dia porque tenho um acordo com O
lá de cima. Ele sabe que estou à frente no grande livro das partidas.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 9 maio 2013. Tema de Sociedade da semana: uma entrevista de vida a Helena Sacadura Cabral

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