Crónicas da Sábado: Carlos Castro, o ingénuo egocêntrico

Fiz em 1987, para a revista Élan, aquela que deve ter sido a maior entrevista que Carlos Castro deu em 35 anos de actividade como cronista social. Trabalhei depois com ele, até 2003, com alguns interregnos e muitas divergências. Nunca mais o encontrei. Já não precisávamos um do outro, utilizámo-nos em simultâneo: o Carlos para receber a sua retribuição, eu para vender mais papel.

A nossa conversa de horas, reproduzida em 75 mil caracteres e em nove páginas, resultou num exercício, então raro, em que perguntador e perguntado falaram de tudo, sem inibições. Não me lembro, mesmo, de Carlos Castro ter assumido publicamente, antes daquele dia, a sua homossexualidade.

Com a história de vida, desde o rompimento com o pai aos shows como travesti, no Finalmente, passando pelos vãos de escada onde teve de dormir e pelas portas que muitos dos que julgava velhos amigos de Angola lhe fecharam em Lisboa, não vale a pena perder tempo porque tudo tem sido escrito nos últimos dias – e para além até do que de facto aconteceu.

O que retive do cronista, mais dos 16 anos em que contactámos do que propriamente da entrevista à Élan, foi o seu instável temperamento, em que se misturavam – como no turbilhão em que consistiu, afinal, a sua vida – a ingenuidade, a devoção ao trabalho, o sentido do espectáculo, a teimosia, a capacidade da paixão, a facilidade da alternância entre o amor e o ódio, a generosidade, ou o egocentrismo que vagueava entre o orgulho pelo que havia conseguido e a influência que pensava ter nos outros, e na própria sociedade, e que em boa verdade não tinha.

Recordo uma discussão por causa do seu convencimento de que podia arrasar ou promover quem quisesse, sem ter em conta o que ainda hoje é a boa realidade portuguesa: ninguém é suficientemente poderoso para destruir quem quer que seja, tal como ninguém é capaz de fazer de um desqualificado uma estrela. Mas o Carlos apostava no temor que suscitaria uma escrita que levantava insinuações e meias verdades, e a ele permaneceu fiel até ao fim.

Algumas vezes o interpelei também sobre as suas paixões – sem a perspicácia do conselho amigo que Guilherme de Melo sempre lhe dispensava – e o avisei do perigo de se encantar com o primeiro que aparecia. “Acredito que o meu destino está marcado”, disse-me, há 23 anos. Pelos vistos, estava, mas não merecia sofrer como sofreu e acabar como acabou. Quando lhe impôs o suspiro final, o seu cobarde assassino já só tinha nas mãos, martirizado e a suster a vida por um fio, o pescoço de uma criança. Pobre Carlos.

Observador, crónica publicada na edição impressa da “Sábado” de 13 janeiro 2011

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