Crónicas da Sábado: careca, ancião, ex-conspirador

Perdi oito quilos em poucos meses e lá se foi todo o esforço do meu cabeleireiro nas últimas duas décadas: deixei de parecer mais novo. Não, não estou doente, aviso já, que ainda no domingo fui abordado no hipermercado por uma senhora que pediu desculpa para me perguntar o que se passava comigo, que emagreci tanto. Ela olhava-me com vontade de largar um coitadinho e isso obrigou-me a ir direito ao espelho mal entrei em casa, para uma análise objectiva da problemática da coisa. E confirma-se a tragédia: não sou mais um jovem inconsciente de cabeça rapada mas um ancião careca com a cara caída. Pior, temo que esse mergulho na terceira idade tenha vindo para ficar.

Ora, o certo é que o meu ego não merecia tamanha franqueza de raciocínio, não era preciso atingir assim o centro do pequeno mundo em que me movo. Até porque são os vaidosos como eu que, reagindo mal às críticas ou não gostando de ouvir as verdades, abrem a porta às conspirações.

Trabalhei 30 anos como jornalista no meio de vulcões de mentiras, ódios, intrigas e golpes palacianos. Prejudiquei e fui prejudicado, ajudei a derrubar e fui derrubado. Cheguei a pensar que tudo girava em torno da querela política e dos jogos partidários, mas fui compreendendo, infelizmente mais tarde que cedo, que é a natureza humana a verdadeira mãe dos bandalhos e dos seus comportamentos. Uma banal diferença de opinião ou a mais leve divergência quanto à acção pode forjar um desentendimento grave, levar a desconfiança a um grupo que se tolerava, criar-nos mais uns inimigos.

Os lugares de direcção e de chefia jamais chegarão para que a corja de oportunistas se reduza à modéstia das tarefas que é capaz de desenvolver. Daí que lhe seja indispensável o disparar e fugir, o insinuar e sorrir, o caluniar e desmentir. Numa redacção em pirâmide, em que as palavras não ficam por dizer, em especial aquelas que mais doem, o conspirador está feito. É rápida e facilmente detectado, e por norma abatido pela saúde do sistema que pensava conseguir sabotar. Nas redacções com líderes fracos já não é assim.

Tive um director que era um génio na arte de dividir para reinar. Todos davam ordens e ninguém decidia. Ele próprio representava a instabilidade em pessoa. Um dia, pediu-me: “Alexandre, corre-me com fulana, não posso com a gaja!” Não corri e, um ano depois, no discurso da sua despedida, ele olhou para a gaja e disse: “Fulana, tu sabes que estás aqui!” E pôs a mão no peito.

Vivo há 11 anos sem aturar conspiradores. Não é que eles não existam, apenas não encontram terreno para poder minar. E dia em que encontrem, já o ancião atingiu outro patamar: tornou-se num sábio e partiu.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 19 janeiro 2012

Partilhar

Os comentários estão fechados.