Crónicas da Sábado: atirar beatas para o chão por conta do patrão

Habituei-me há muito a não fazer previsões. E hoje, então, tentar adivinhar o que aí vem, tal como ganhar o Euromilhões, é altamente improvável. Mas talvez 2012 consiga pôr fim à minha perplexidade perante a ausência, no ano que finda, de uma medida que, pelos vistos, não preocupa a troika, nem sequer as cabecinhas pensadoras do nosso patronato mais mediano, e logo numa época em que retirar direitos a quem trabalha parece ser o remédio santo contra todas as ameaças desta crise sem fim.

Sim, porque os estrangeiros que nos visitam a cada três meses para inspeccionarem as contas e dizerem como autorizam que gastemos o dinheirinho – que é em boa verdade deles – não podem pensar em tudo e, muito menos, conhecer a vasta panóplia dos pequenos vícios nacionais, aqueles truques com que vamos fintando as leis, rindo da austeridade, baralhando a velha e relha conversa da produtividade ou, melhor dito, da falta dela.

Por exemplo, nas redacções, os jornalistas riem a bom rir da imposição de se vir a cumprir mais meia hora diária. Começa porque não assinamos o ponto, nem nos sujeitamos a normas administrativas, pelo que desconhecem as empresas as horas de serviço semanal que prestamos. E embora pareça o contrário, a culpa não nos pertence. É que as tarefas dos jornalistas – daqueles que levam a profissão a sério, claro – obrigam a uma disponibilidade total, ou seja, tanto vamos ao aeroporto ouvir um Chiquinho brasileiro às 6 da manhã como passamos um mês no Sara por causa da revolta dos camelos. Daí que o controlo, a ser levado à letra, resultasse em efectivo prejuízo das entidades patronais, apesar da norma das 35 horas semanais já só ser praticada, pelos radicais da ordem, naqueles títulos que caminham alegremente para o fim – sem se aperceberem ou por sentirem uma fatal atracção pelo abismo. Quem é jornalista por vocação não trabalha nem o que lhe apetece, nem o que o patrão quer ou não quer, trabalha rigorosamente aquilo que é preciso. 

Mas não me despeço do leitor e do velho ano sem me referir à ideia inicial, à tal medida que a troika não toma. É que a redacção de Record esteve instalada, até há pouco, no centro da capital, numa zona de escritórios. E era impressionante verificar as centenas de trabalhadores que se concentravam à entrada dos edifícios, uns a fumar e outros disfarçados de fumadores para poderem dar à língua. Uma empresa com 40 colaboradores fumantes tem pelo menos cinco ou seis pessoas a mais, já que cada uma perde, no mínimo, uma hora por dia a atirar beatas para chão. Aos gestores (?) que não fizeram ainda essas continhas quero endereçar votos de um 2012 sem irem à falência.

Observador, crónica publicada na edição mpressa da Sábado de 29 dezembro 2011

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