Crónicas da Sábado: as reformas douradas

Estou no activo há 46 anos, descontei barbaridades e tenciono pedir a reforma – da Segurança Social, não do trabalhinho – em breve, sendo candidato a uma pensão de luxo, ou dourada, conforme a bacoca designação a que recorra este ou aquele órgão de informação no seu apelo recorrente à inveja social.

É certo que o exemplo vem de cima, pois o Governo, no seu afã de sugador compulsivo dos rendimentos dos portugueses, não há muitos anos congelou, na função pública, salários e pensões acima de uns fabulosos mil euros, preparando-se agora, desgraçadamente, para fazer muito pior.

O que mais me espanta, ou talvez não – e explicarei porquê –, é que são os directores dos jornais quem inventa, incentiva ou permite apenas, esse recurso a expressões populares de efeito garantido nas galerias, ou seja, nas vendas em banca. Quem ganha menos, por demérito profissional ou de empenhamento, por falta de sorte ou de oportunidade, facilmente se deixa tomar pelos ventos da revolta que a expressão reforma de luxo semeia – e daí ao acto de compra nem vai um ai.

A minha surpresa decorre de um facto simples: qualquer um desses jornalistas com cargos de direcção aufere salários de luxo, segundo a sua própria terminologia, e não na minha, e espera – mesmo sem o querer admitir – receber um dia, do Estado que ora lhe leva os anéis e os dedos, uma reformazinha, dirá igualmente ele e não eu… dourada.

Quando escrevo que, afinal, talvez não me espante assim tanto, é que também já dirigi títulos generalistas e recorri então a frases que puxavam por essa indignação que hoje me incomoda – até porque não me ajuda a vender o Record, que depende de outras revoltas, essa é que é a verdade.

Mas não fique o leitor a pensar que vou ficar com uma daquelas pequenas fortunas que cabem – ou cabiam, vá lá saber-se no meio desta confusão – aos gestores da banca e das grandes empresas públicas, ou aos políticos que, ao cabo de oito anos de andarem por aí, se banqueteiam com aposentações não só milionárias – essas sim – como despudoradamente desproporcionadas em relação às prestações sociais a que os seus titulares estiveram sujeitos.

O meu caso é claro. Depois de décadas a apostar nos dez melhores anos, naturalmente os últimos, a mudança de regras e de cálculo reduziu-me a reforma a cerca de 60 por cento do valor que teria em 2007. E corro ainda o risco de ver adoptado um tecto máximo, que me esmagará de novo a pensão, como já prometeu o futuro ministro Miguel Relvas, bem claro na sanha persecutória com que se propõe atingir quem cumpriu. “Independentemente daquilo a que se tiver direito”, disse ele. Pessoa de mal – eis no que se tornou o Estado.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 4 novembro 2010

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