Crónicas da Sábado: arrependem-se sempre

A violação é um dos actos criminosos que mais me arrepia, mas julgo ser difícil que um homem, mesmo podendo, também ele, ser alvo dessa tortura, consiga meter-se na pele de uma mulher violada e ter assim a noção precisa da violência, física e mental, a que a vítima é submetida.

Atravessamos, infelizmente, uma época em que as atenções se centram muito nos atentados ao património, nas burlas de colarinho branco, nos assaltos a ourivesarias, nas fugas ao pagamento de impostos ou nos diversos tipos de corrupção – confundindo-se até, muitas vezes e de forma demasiado perigosa, os sentimentos de indignação com os de autoflagelação por não se ter tido idêntica esperteza. Já os crimes contra as pessoas e nomeadamente aqueles que atingem os mais indefesos, sejam idosos, mulheres ou crianças, não merecem condenação tão severa, nem da opinião pública, nem da opinião publicada, o que tem efeitos perversos sobre o legislador, que logo finge não entender que a brutalidade de certos actos justifica a insensibilidade adequada da lei.

O exemplo recente do violador de Telheiras é paradigmático. Enquanto andava à solta, era um monstro que espalhava o terror numa zona da capital e que repartia, com a incapacidade da polícia em o deter, a ira do cidadão. Quando finalmente foi apanhado, depressa se transformou em mais um jovem a necessitar de tratamento, recaindo sobre ele uma compreensão proporcional ao véu de esquecimento que se abateu sobre o calvário vivido por dezenas de jovens violentadas em vãos de escadas, arrecadações e elevadores – e saberá Deus quantas sofrendo em silêncio, até hoje, por vergonha ou apenas para não serem forçadas a reviver o seu pesadelo.

É verdade que há crimes mais horrendos. Há dias, vi num daqueles Oprah Show que a SIC Mulher repete e volta a repetir noite fora, o caso de uma família agredida, torturada, violada, roubada e queimada viva por dois assaltantes que se introduziram em casa, de madrugada. Escapou unicamente o pai, um médico que os bandidos julgaram morto e que conseguiu arrastar-se, pelo alçapão da cave, para o quintal do vizinho, antes de o incêndio lhe destruir a casa e o que restava da mulher e das duas filhas, de 17 e 11 anos.

São situações destas que nos dão alguma tolerância perante a simples violação – e que só é simples para quem não a sofre, claro. Afinal, o criminoso arrepende-se sempre e as vítimas seguem em frente. Enfim, a lei é o que é. Mas a mão mole da sociedade choca-me ao pensar que uma besta pode matar, mesmo sem sangue, e depois, com uns comprimidos, recuperar a vida que destroçou a tantos inocentes. Sensibilidade estúpida a minha, obviamente.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 15 setembro 2011. Tema de Sociedade da semana: um caso de violação na primeira pessoa.

Nota da QdoC
Esta crónica foi escrita
antes de ser conhecida a condenação do “violador de Telheiras” a 25 anos de prisão, pena máxima, portanto. 
A decisão do Tribunal, sendo aparentemente justa, torna o exemplo apresentado no texto… num exemplo desajustado. Pela falta de previsão de que poderia acontecer o que veio de facto a acontecer, as minhas desculpas.

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